30 Outubro 2012

Sobre fios soltos e foragidos

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Todos somos iguais perante a lei, mas nem todos somos iguais perante os responsáveis por aplicá-la. Em Capiibary, Paraguai, ocorreu um crime espantoso: um homem mascarado silenciou com um tiro certeiro a voz de Salvador Medina Velázquez, jornalista da rádio comunitária Ñemity FM. O crime ocorreu em 5 de janeiro de 2001. Seis meses depois, apesar de todas as promessas do governo de Luis González Macchi de fornecer uma segurança rígida e solucionar o crime prontamente, os familiares da vítima vivem amedrontados. Abandonaram sua casa devido a ameaças de vizinhos que têm vínculos com os detidos, mas decidiram voltar por causa das dificuldades de adaptação a outro local.
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O processo do caso Medina foi adiado pelo menos por dois meses a pedido do promotor público Ramón Trinidad Zelaya Bogado. O atraso, aceito pelo juiz Silvio Flores Mendoza, foi resultado de investigações pendentes, segundo um dos irmãos da vítima, Pablo Medina Velázquez, correspondente do jornal ABC Color, de Assunção. A data do julgamento foi transferida de 10 de maio para o fim de julho. As acusações formais deverão ser apresentadas no Tribunal Federal de Curuguaty, a 40 km do local do crime, em 9 de julho. Enquanto isso, continuam detidos na prisão de Coronel Oviedo, Milcíades Mailyn, acusado de ter executado o crime; seu primo, Daniel Enciso Marilin, acusado de ser seu cúmplice; Timoteo Cáceres, professor que teria ligações com os dois, e Luis Alberto Franco, filho de um líder político local chamado Justo e que, segundo Pablo Medina Velázquez, foi identificado como traficante de toras de madeira de uma Reserva Natural administrada pelo Ministério de Agricultura e Gado do Paraguai localizada em Capiibary, departamento de San Pedro Fatos resultantes das investigações e das prisões: * nenhuma medida foi tomada quanto às alegações de Medina sobre o tráfico de madeira e ligações com uma gangue de Ara Pyahu, a 20 km de Capiibary, razão pela qual se especula sobre o envolvimento da polícia. * o filho de um líder político local do partido Colorado, que está no poder desde 1947 no Paraguai, está implicado no assassinato, razão pela qual se especula se haveria motivação política para o crime. * estão vindo à tona as supostas rixas profissionais de Cáceres, professor como Medina, e uma ameaça de morte que Medina afirmou ter recebido na rádio, fatos que permitem especular sobre uma motivação pessoal para o crime. O caso em si, com sucessivas mudanças de promotor, contém vários enigmas. Estão foragidos Claudio Bareiro e Mirta Miranda, que parecem ter sido os últimos a ter em mãos a arma com a qual Medina foi assassinado quando passava de moto na rua Primeiro de Março, em Capiibary. Está foragido também Pablo Quiñonez Torres, que tem vínculos com o negócio de madeira. Também há suspeitas sobre os irmãos Gilberto e Alfredo Salinas, apontados por Rolando Miranda Martínez (irmão de Mirta e que também está sendo investigado) como supostos responsáveis por ocultamento da arma. Acredita-se que estejam em Ciudad del Este, fronteira com o Brasil. Já foram emitidos dois mandados de prisão pelo juiz Flores Mendoza, mas sem nenhum resultado. A lentidão das investigações ficou mais nítida em fevereiro, um mês depois do crime. "Não avançaram nada", disse na época Pablo Medina Velázquez. "Uma das razões é a constante mudança de promotores públicos em Curuguaty, sede do Tribunal. O processo teve início com Gladys Vallejos, continuou com Zelaya Bogado (de férias até 20 de fevereiro) e com Miguel Alcides Vera Zarza, e foi retomado por Zelaya Bogado." Sem proteção policial A família de Salvador estava sendo protegida por um policial que, curiosamente, deixou seu posto a mando de seus superiores. O mesmo aconteceu com a casa de Pablo Medina em Curuguaty, apesar do compromisso de segurança assumido pelo vice-ministro do Interior, Mario Agustín Sapriza, diante da possibilidade de que o móvel do crime tivesse sido as informações divulgadas pela rádio. Sua casa é vigiada esporadicamente por policiais da 5a Delegacia. Parece que a ex-mulher de um político da região estaria tentando aproximar-se de Pablo Medina, aparentemente para negociar com ele. Mas um de seus 10 irmãos, Digno Salomón, teve de abandonar sua residência na universidade por causa de ameaças de Emilce Portillo, vizinha de Capiibary que tem relações amorosas com um dos detidos. Os pedidos formais dos advogados dos detidos para liberação de seus clientes foram recusados pelo juiz Flores Mendoza. O ponto de partida nas investigações foi a estação de rádio, que é agora dirigida por seu conselho diretor. Foi lá que Medina recebeu ameaças de morte, mas nunca revelou de quem. Seu cargo de presidente do conselho está ocupado desde fevereiro por Federico Godoy, em caráter de interino, que afirma ter sido alvo de muita perseguição. Há pouco tempo, a polícia parou um caminhão que transportava toras de madeira. Pertenciam, segundo Pablo Medina Velázquez, a Justo Franco, pai de um dos detidos, cujo paradeiro é desconhecido. "Unindo os fios soltos em minha última cobertura jornalística sobre um bloqueio de estrada", disse Pablo Medina, "um informante em quem confio confirmou que a arma do assassinato pertence a Justo Franco, que abandonou todos seus filhos. O informante será chamado a depor pelo promotor Zelaya Bogado".

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