Newsletter
Portugués
  • Español
  • English
  • Portugués
▼
Assembleia da SIP.

Marc Lacey, do The New York Times, defende o papel do jornalismo independente nos Estados Unidos

A conversa magna “Estados Unidos rumo às eleições: o poder, a imprensa e a polarização” foi moderada por Martha Ramos, diretora editorial da Organización Editorial Mexicana (OEM).

23 de octubre de 2026 - 13:56

Por: Mariana Belloso

Bogotá (23 de outubro de 2026) – Durante a 82ª Assembleia Geral da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), realizada esta semana em Bogotá, o diretor editorial do The New York Times alertou para as crescentes pressões contra os meios de comunicação, defendeu a necessidade de um jornalismo capaz de resistir à hostilidade política e advertiu sobre os riscos que a inteligência artificial representa para a sustentabilidade das redações.

A conversa magna “Estados Unidos rumo às eleições: o poder, a imprensa e a polarização” teve como protagonista Marc Lacey, diretor editorial do The New York Times, e foi moderada por Martha Ramos, diretora editorial da Organización Editorial Mexicana (OEM) e presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa e Informação da SIP.

A sessão ocorreu em um dos momentos de maior tensão entre a imprensa e o poder político nos Estados Unidos, um contexto que, segundo Lacey, está obrigando os meios de comunicação a rever suas rotinas, fortalecer suas equipes jurídicas e se preparar para um confronto permanente com aqueles que tentam desacreditar o trabalho jornalístico.

“O que Trump diz hoje deve ser levado a sério porque geralmente se transforma em ação”, afirmou Lacey ao descrever as mudanças na cobertura presidencial da atual administração, iniciada em janeiro de 2025, em comparação com o primeiro mandato do presidente americano, entre 2017 e 2021.

Embora a conversa tenha se concentrado na realidade política dos Estados Unidos, muitos dos temas abordados refletem a realidade do exercício do jornalismo no restante do continente. A SIP, cuja missão histórica é defender a liberdade de expressão e de imprensa nas Américas, dedica boa parte de seu encontro anual à análise de fenômenos que hoje afetam meios de comunicação e jornalistas de toda a região, como o descrédito sistemático da imprensa, a polarização política, a desinformação, a sustentabilidade econômica dos veículos e o impacto da inteligência artificial no setor.

A apresentação de Lacey abordou aspectos que contribuem para o debate sobre como os meios de comunicação podem sobreviver e continuar cumprindo sua função democrática em ambientes cada vez mais hostis. Confira cinco pontos destacados por ele:

1. Os ataques à imprensa já não são um fenômeno isolado

Lacey afirmou que o confronto entre a administração Trump e os meios de comunicação é hoje mais profundo do que durante o primeiro mandato presidencial. Na primeira gestão, muitas declarações do presidente não se traduziam em ações concretas, mas agora ocorre o contrário.

“É preciso levar a sério o que ele diz”, explicou, observando que as publicações do presidente nas redes sociais costumam se transformar rapidamente em decisões governamentais, ordens executivas ou restrições contra jornalistas e veículos de comunicação.

2. As redações tiveram de se reinventar

Uma das mudanças mais significativas descritas pelo editor foi a transformação do The New York Times em uma operação jornalística global que funciona 24 horas por dia. Com equipes em Nova York, Londres e Seul, o jornal mantém uma cobertura contínua para responder em tempo real aos acontecimentos políticos e sociais. As equipes trabalham em uma dinâmica permanente de monitoramento e interpretação dos fatos.

3. A Primeira Emenda continua resistindo, mas está sendo posta à prova

Lacey defendeu a solidez histórica das instituições americanas, embora tenha reconhecido que elas enfrentam tensões novas e mais intensas. Na avaliação dele, o sistema de freios e contrapesos entre os poderes continua funcionando, mas passa por um teste extraordinário.

Para os meios de comunicação, isso significa a necessidade de fortalecer sua capacidade jurídica e se preparar para litígios cada vez mais frequentes relacionados ao acesso à informação e à liberdade de imprensa.

4. Os meios de comunicação devem deixar de se ver como concorrentes

Uma das mensagens mais relevantes para o público da SIP foi seu apelo à colaboração. Segundo Lacey, diante de ameaças comuns, os meios de comunicação não podem agir de forma isolada.

Como exemplo da necessidade de solidariedade entre veículos, Lacey lembrou um episódio recente em que a administração Trump barrou CNN, Politico e MSNBC, impedindo o acesso desses meios à Casa Branca e retirando suas credenciais de cobertura. Os três veículos iniciaram ações judiciais, mas o apoio foi muito mais amplo: organizações jornalísticas com diferentes linhas editoriais se uniram em defesa do acesso da imprensa às instituições públicas.

5. A inteligência artificial é uma oportunidade, mas também um risco

Embora a inteligência artificial tenha sido um dos temas transversais de toda a Assembleia da SIP, Lacey ressaltou que o setor ainda não encontrou resposta para uma pergunta fundamental: quem financiará o jornalismo original se as plataformas tecnológicas continuarem utilizando conteúdo jornalístico para treinar modelos de IA sem compensar quem produz essas informações?

Para Lacey, a sustentabilidade do jornalismo investigativo depende diretamente da existência de modelos capazes de financiar reportagens, coberturas e verificações produzidas por jornalistas humanos.

O diretor editorial do The New York Times, que trabalhou durante anos no México, destacou que o jornalismo continua dependendo dos mesmos princípios essenciais que historicamente orientam a profissão: verificar, contextualizar e buscar a verdade.

Continue lendo

Você pode estar interessado em