Através de fronteiras e formatos, os jornalistas demonstraram que a mudança climática já não é uma ameaça distante, mas uma força imediata e acelerada que está transformando os meios de subsistência, os sistemas de saúde, os ecossistemas e os padrões migratórios em toda a região.
Uma das colaborações mais destacadas, produzida por MalaYerba e El Heraldo, documentou o reaparecimento do parasita conhecido como mosca-do-berne (gusano barrenador), anteriormente erradicado na década de 1990, que agora se propaga rapidamente pela América Central e pelo México. Por meio de reportagens de campo em comunidades rurais, hospitais e fazendas de gado, a equipe expôs a interseção entre as mudanças climáticas, as rotas ilegais de gado, sistemas frágeis de vigilância e falhas na saúde pública — fatores que agravam a epidemia.
Com base em dados oficiais dos CDC dos Estados Unidos e investigações em campo, os jornalistas identificaram mais de 135.000 casos em animais e cerca de 1.000 infecções humanas até o final de novembro de 2025, números que apontam para uma crise regional que supera a capacidade atual de resposta. A investigação também revelou opacidade nos dados, subnotificação e medo de represálias, especialmente em El Salvador sob o regime de exceção.
As histórias humanas ressaltaram a urgência da situação: desde pecuaristas que temem relatar surtos até casos médicos trágicos, incluindo a morte de um recém-nascido em Honduras devido ao atraso no tratamento. A reportagem destacou o colapso da capacidade regional de produção de moscas estéreis e a ausência de respostas políticas coordenadas, levantando questões críticas sobre a preparação em uma região cada vez mais quente.
“Este não é um surto isolado; ele avança mais rápido do que os sistemas de saúde conseguem monitorar”, concluiu a equipe em um prévia documental apresentada durante o workshop.
Por meio de reportagens televisivas de formato longo, imagens de drones, fotografias e narrativas digitais, jornalistas guatemaltecos do Prensa Libre e da Guatevisión documentaram como o Corredor Seco quase dobrou de tamanho na última década, passando de aproximadamente 42 para mais de 80 municípios.
Reportando desde San José Las Pilas (Jalapa), a equipe mostrou como as comunidades enfrentam hoje entre nove e dez meses de seca por ano, severas perdas agrícolas, abandono de infraestrutura e migração forçada — especialmente de mulheres para centros urbanos. Ao mesmo tempo, a cobertura enfatizou o jornalismo de soluções, destacando estratégias de adaptação lideradas localmente, como a captação de água da chuva, a microirrigação e a aquicultura em pequena escala, apoiadas por parceiros da cooperação internacional.
A evidência visual da perda de vegetação, da redução da produtividade agrícola e da expansão de áreas semiáridas transformou dados climáticos abstratos em uma realidade tangível, reforçando o papel do jornalismo de qualidade na alfabetização climática e na prestação de contas.
“O Corredor Seco não está diminuindo; está crescendo”, afirmou a equipe. “A resiliência vem da coordenação comunitária, não das promessas políticas.”
Um documentário de 21 minutos e uma série radiofônica complementar analisaram a bacia do rio Lempa, um recurso vital para mais de 4,2 milhões de pessoas na Guatemala, Honduras e El Salvador. A investigação, realizada pela Radio Cadena Voces e pela ARPAS, documentou a redução da vazão, o aumento das temperaturas, a perda de biodiversidade e ao menos sete principais fontes de contaminação, incluindo resíduos agroindustriais, esgoto sem tratamento, mineração, desmatamento e sedimentação.
A reportagem colocou no centro mulheres líderes da região do Baixo Lempa, que organizam a adaptação comunitária em meio ao abandono estatal, aos danos ambientais e à criminalização. Os depoimentos revelaram a carga desproporcional que as mulheres enfrentam diante dos impactos climáticos — da escassez de água às crises de saúde — e a necessidade urgente de manter a atenção da mídia.
“O Lempa vai acabar pouco a pouco — e somos nós mesmos que o estamos destruindo”, alertou uma integrante da comunidade.
Do jornalismo à preparação: construindo redações resilientes
No segundo dia do workshop, os meios participantes apresentaram planos institucionais de preparação e resposta a desastres, elaborados com base no modelo da UNESCO e adaptados a diferentes realidades — desde grandes redações multimídia até redes de rádios comunitárias e meios no exílio.
Os principais avanços incluíram:
• Planos de continuidade operacional com sistemas de energia de reserva, locais alternativos de transmissão e conectividade redundante
• Cadeias de comando claras e coordenação com agências de emergência e outros atores de redução do risco de desastres
• Políticas editoriais sensíveis ao trauma e diretrizes éticas para a cobertura de desastres
• Protocolos de verificação assistidos por IA para combater a desinformação durante crises
• Compromisso de não deixar ninguém para trás na cobertura de desastres
• Medidas de segurança e saúde mental, especialmente para jornalistas que trabalham sob ameaça ou no exílio
Esses planos demonstraram que a preparação não é uma política abstrata, mas uma ferramenta prática que salva vidas — tanto das instituições midiáticas quanto das comunidades que elas servem.
“Uma sociedade bem informada evita mortes durante os desastres”, afirmou uma das repórteres que participaram do projeto.
Durante as mesas-redondas, os jornalistas destacaram que uma das maiores conquistas do programa foi a criação de uma rede viva de meios transfronteiriços. Apesar dos desafios — acesso restrito à informação, ambientes hostis, limitações financeiras, vigilância e exílio —, os participantes concordaram que a colaboração ampliou o impacto, revelou padrões regionais e fortaleceu a solidariedade profissional.
“Uma investigação é mais forte quando se replica além das fronteiras”, afirmaram os participantes.
A SIP destacou que nenhuma história vale uma vida e, junto com a UNESCO, reafirmou seu compromisso com a segurança dos jornalistas, os padrões éticos e o apoio contínuo aos meios em regiões vulneráveis e em ambientes de alto risco.
Um modelo para o futuro
O programa foi concluído com recomendações concretas para parceiros do desenvolvimento midiático, incluindo a manutenção da rede regional, a ampliação do apoio à segurança e à saúde mental, o fortalecimento do uso de tecnologias digitais e o financiamento do jornalismo focado em soluções climáticas orientadas às comunidades.
Resultados estratégicos:
• Investigações transfronteiriças de alto impacto que conectam clima, saúde, meio ambiente e governança
• Resiliência institucional fortalecida por meio de planos personalizados de preparação e resposta a desastres
• Laços regionais mais profundos que possibilitam futuras colaborações e defesa conjunta contra a desinformação e as ameaças
Ao final do workshop, a SIP e a UNESCO confirmaram sua intenção de continuar gerando materiais de visibilidade e consolidar esta iniciativa como um modelo para o jornalismo climático, a preparação para desastres e a resiliência midiática na América Central.
Além das fronteiras, a mídia centro-americana está demonstrando que colaboração, preparação e qualidade informativa são essenciais para enfrentar a crise climática — hoje, não amanhã.
A SIP é uma organização sem fins lucrativos dedicada a defender e promover a liberdade de imprensa e a liberdade de expressão nas Américas. É composta por mais de 1.300 publicações no Hemisfério Ocidental e tem sede em Miami, Flórida, Estados Unidos.