Miami (18 de março de 2026) — A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) manifesta profunda preocupação com a exclusão das liberdades de expressão e de imprensa da agenda pública no atual processo de transição política na Venezuela, e exorta à adoção, com caráter urgente, de medidas concretas que garantam o pleno, livre e independente exercício do jornalismo.
A organização internacional alerta que a omissão desses direitos fundamentais nas discussões sobre reformas institucionais, judiciais e econômicas constitui um sinal alarmante que compromete a viabilidade de uma transição democrática genuína.
No contexto excepcional que o país atravessa desde 3 de janeiro, a SIP enfatiza que, sem jornalismo livre, nenhuma transição democrática pode se consolidar de forma real, legítima e sustentável. A reconstrução institucional da Venezuela exige, de maneira inevitável, o restabelecimento efetivo das garantias para a liberdade de expressão, liberdade de imprensa e o direito da cidadania de receber informações.
Além disso, a SIP ressalta que não pode haver democracia sem uma imprensa livre, plural e independente, e que a ausência desses princípios na agenda pública perpetua condições de censura, perseguição e autocensura que caracterizaram o exercício jornalístico no país nos últimos anos.
Nesse sentido, a SIP insta as autoridades de transição, com o apoio de organismos intergovernamentais de promoção e defesa da liberdade de imprensa e da comunidade internacional, a adotar, de forma oportuna, as seguintes medidas:
- Levantar o bloqueio informativo atualmente imposto pelo órgão regulador CONATEL, em coordenação com operadoras de telecomunicações, que restringe o acesso a mais de 60 portais de notícias nacionais e internacionais, incluindo El Nacional, CNN en Español, Infobae e NTN24, em um contexto no qual o jornalismo independente opera majoritariamente em ambientes digitais.
- Garantir proteção jurídica e pessoal a jornalistas perseguidos, incluindo o imediato encerramento de processos judiciais arbitrários, mandados de prisão e outras formas de criminalização do exercício jornalístico. Centenas de jornalistas e trabalhadores da imprensa foram forçados ao exílio devido a essas práticas.
- Restabelecer o direito à identidade e à mobilidade, diante de restrições administrativas que impedem jornalistas de obter documentos oficiais ou retornar ao país. A negação de procedimentos por órgãos estatais, com alegações infundadas, constitui uma forma de perseguição indireta.
- Devolver bens e meios confiscados, incluindo sedes, equipamentos e frequências, em casos que representam formas de censura patrimonial. Essas práticas enfraqueceram gravemente o ecossistema informativo e devem ser revertidas como parte de qualquer processo de normalização institucional. O jornal El Nacional, por exemplo, teve suas instalações tomadas por meio de um processo judicial manipulado, que também resultou na confiscação de um imóvel pertencente a familiares de seu proprietário, Miguel Henrique Otero, em clara violação do direito de propriedade.
- Garantir proteção integral ao exercício jornalístico frente a ameaças de atores estatais e grupos irregulares. O jornalismo continua se desenvolvendo em um ambiente de alto risco que desestimula o retorno de profissionais e restringe o direito da população de estar informada.
- Assegurar que jornalistas recentemente libertados após detenções arbitrárias possam exercer plenamente sua função, sem restrições, cerco informativo ou qualquer tipo de retaliação. A libertação deve vir acompanhada do pleno restabelecimento de seus direitos profissionais e civis.
A SIP conclui que a perseguição judicial, o exílio forçado, a censura digital e a confiscação de meios configuram um ambiente incompatível com qualquer processo sério de recuperação democrática.
Finalmente, a organização reafirma sua disposição de acompanhar e apoiar todas as iniciativas destinadas a garantir que a reconstrução democrática da Venezuela seja autêntica, inclusiva e baseada no respeito irrestrito aos direitos fundamentais.
A SIP é uma organização sem fins lucrativos dedicada a defender e promover a liberdade de imprensa e a liberdade de expressão nas Américas. É composta por mais de 1.300 publicações no Hemisfério Ocidental e tem sede em Miami, Flórida, Estados Unidos.