Miami (12 de agosto de 2025) – Hoje, 12 de agosto, completam-se 100 anos do nascimento de Guillermo Cano Isaza, jornalista e diretor do El Espectador por mais de três décadas, até seu assassinato em 17 de dezembro de 1986, em Bogotá. Sua coragem, ética e rigor jornalístico fizeram dele uma referência e exemplo para gerações de jornalistas. Hoje, honramos a memória de um profissional que acreditava, com firmeza, que a palavra deveria dar visibilidade às injustiças e jamais se calar diante dos violentos.
Em sua coluna de opinião, Libreta de apuntes (“Caderno de Anotações”), denunciou diversas vezes o Cartel de Medellín e a infiltração do narcotráfico na política do país. Sob sua liderança e visão, o jornal criou uma unidade de investigação que revelou fraudes cometidas por vários conglomerados econômicos e expôs os cartéis em meio a um dos períodos mais sombrios de violência política no país. Antes de seu assassinato, havia recebido inúmeras ameaças e não contava com proteção do Estado, apesar de as autoridades terem conhecimento dessas agressões. Sua morte foi não apenas um golpe para o El Espectador, mas também para o jornalismo colombiano, que, na década de 1980, sofria constantes ataques.
Mas a memória também exige que a justiça avance. Desde a Fundação para a Liberdade de Imprensa (FLIP), a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) e a Robert F. Kennedy Human Rights (RFK Human Rights), denunciamos como o processo judicial foi interrompido diversas vezes. Apenas 22 anos após o assassinato, em 2008, a Direção de Direitos Humanos da Procuradoria-Geral da Nação reabriu a investigação. Até aquele momento, apenas alguns envolvidos haviam sido condenados: Luis Carlos Molina Yepes, como cúmplice de homicídio qualificado, e Castor Emilio Montoya, conhecido como “Quimilio”, como coautor. Gustavo Adolfo Gutiérrez Arrubla, o “Maxwell”, e Jhon Jairo Velásquez Vásquez, o “Popeye”, foram vinculados como acusados.
Em julho de 2010, a Procuradoria declarou esse crime como de lesa-humanidade, ao considerar que foi uma ação sistemática e generalizada contra o El Espectador naquele período. Em fevereiro do ano passado, foi realizado o ato de reconhecimento da responsabilidade do Estado colombiano no assassinato de Guillermo Cano. Nesse ato, o Estado admitiu que descumpriu sua obrigação de garantir a vida do jornalista, negligenciou seu dever de investigar, julgar e punir os responsáveis, e não protegeu as vítimas nem seus familiares. Esse reconhecimento foi uma das medidas de reparação à família Cano recomendadas pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) em 2001, às quais o Estado se comprometeu em um Acordo de Cumprimento assinado no mesmo evento.
No entanto, um ano e meio após a assinatura do acordo, as medidas pactuadas seguem sem implementação e não há avanços significativos nas ações para garantir o acesso à justiça e esclarecer os fatos. Quase quatro décadas depois, este crime continua impune. Por isso, a FLIP, a SIP e a RFK Human Rights reiteram o apelo ao Estado colombiano para que cumpra o acordado e avance nas investigações. Comemorar a vida de Guillermo Cano e de tantos jornalistas assassinados no país é um exercício necessário de memória e resistência.
A vida e o legado de Guillermo Cano Isaza nos lembram que a liberdade de expressão é um direito que precisa ser defendido todos os dias e que não pode ser considerado garantido. Seu destino era ser jornalista e, por isso, mesmo temendo por sua segurança, enfrentou o narcotráfico e a máfia, e morreu no cumprimento de seu dever profissional. Manter viva sua memória é também resistir a qualquer tentativa de silenciar a verdade. Recordá-lo é honrar aqueles que, como ele, fazem do jornalismo um serviço à sociedade e um pilar de uma democracia participativa e plural.
*Em comemoração ao centenário de nascimento de Guillermo Cano Isaza, a Fundação Guillermo Cano Isaza e o El Espectador realizarão hoje, 12 de agosto, às 17h, uma série de atividades no Colégio Gimnasio Moderno, em Bogotá. O evento incluirá a estreia do documentário animado Mientras haya tinta (“Enquanto houver tinta”) e rodas de conversa para celebrar 2025 como o Ano Guillermo Cano, declarado pelo Ministério das Artes e das Culturas.