Miami (28 de julho de 2025) — O Estado colombiano reconheceu publicamente sua responsabilidade internacional no caso dos jornalistas Julio Daniel Chaparro Hurtado e Jorge Enrique Torres Navas, assassinados em 24 de abril de 1991. O reconhecimento ocorreu durante uma cerimônia realizada na sexta-feira em Bogotá, com a presença de familiares, autoridades e organizações defensoras da liberdade de imprensa.
A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), que representou as famílias perante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), acompanhou o processo por mais de uma década e considerou esse avanço um passo positivo na busca por justiça. Andrés Mompotes, vice-presidente regional da SIP para a Colômbia e diretor do jornal El Tiempo, proferiu um discurso que deu voz à dor, à memória e à esperança de uma comunidade jornalística ferida, mas não vencida.
“Estamos reunidos para testemunhar um passo importante na busca por justiça: o reconhecimento, por parte do Estado colombiano, de sua responsabilidade internacional por um crime que nunca deveria ter ocorrido e cuja impunidade já dura mais de três décadas”, afirmou Mompotes.
“Julio Daniel e Jorge Enrique representavam o jornalismo corajoso, aquele que se atreve a ir onde outros não querem ir, que busca entender a raiz do conflito para contá-lo com sensibilidade e rigor. Morreram cumprindo seu dever, e suas mortes representaram um golpe devastador para o jornalismo colombiano.”
Durante anos, o caso foi marcado por inação institucional, versões contraditórias e esquecimento. Somente em 2021 a CIDH admitiu a petição apresentada pelas famílias e pela SIP, abrindo caminho para um acordo amistoso firmado este mês entre as vítimas, o Estado, a SIP e a Fundação para a Liberdade de Imprensa (FLIP).
O ato — disponível neste link — também foi um espaço de memória para homenagear e reafirmar o legado jornalístico de Chaparro e Torres. Janet Alexandra Torres Mora, filha do repórter fotográfico assassinado, lembrou com emoção a sensibilidade e o talento de seu pai:
“Jorge Enrique Torres Navas foi jornalista de profissão, mas repórter fotográfico de coração. Nunca precisou de palavras para transmitir sua arte, sua sensibilidade. Foram milhões de capturas, disparos um a um e em rajadas, daqueles que precisam existir. E fotografias que fizeram parte de seu trabalho, de sua vida cotidiana e familiar. É incrível como ele conseguiu parar o tempo em cada foto, como conseguiu capturar um instante e deixar essa sensação em seu trabalho.”
Já Daniel Chaparro Díaz, filho do cronista, lamentou como o trabalho jornalístico de ambos foi ignorado no processo judicial:
“Nunca se soube que tipo de jornalismo faziam aqueles dois repórteres, nunca se interessaram. Continuam não se interessando, continuam sem ver. E não podemos seguir esperando que o façam. O esclarecimento dos assassinatos de jornalistas exige movimento, articulação e um despertar que ainda não tivemos, mesmo em uma região onde continuam matando jornalistas”, declarou com firmeza.
A ministra das Culturas, das Artes e dos Saberes, Yannai Kadamani Fonrodon, formalizou o reconhecimento do Estado:
“Reconhecemos que, durante décadas, esse crime permaneceu na impunidade, negando justiça às suas famílias, aos colegas da imprensa e a toda a sociedade colombiana. Este acordo é um gesto de responsabilidade e de vontade política para reconhecer o dano causado e avançar com determinação nos processos de reparação às vítimas.”
A ministra anunciou ainda uma série de medidas reparatórias, como o acompanhamento das investigações criminais, mecanismos de indenização, a criação do Prêmio Honorário Regional Julio Daniel Chaparro e Jorge Torres Navas nas categorias de crônica e fotografia, e um mural comemorativo em Bogotá.
Mompotes também destacou o papel essencial da CIDH e das organizações que mantiveram o caso vivo:
“A Comissão Interamericana foi fundamental nesse processo. Graças ao seu apoio, as famílias encontraram um canal para serem ouvidas, para exigir respostas e para dar visibilidade a um caso emblemático da violência contra a imprensa.”
Ele lembrou que o assassinato de um jornalista não afeta apenas a vítima ou sua família:
“Quando se mata um jornalista por dizer a verdade, não se silencia apenas uma voz. Priva-se toda a sociedade de um olhar crítico, de uma história que precisava ser contada. E quando esse crime fica impune, transmite-se uma mensagem terrível: que é possível calar a verdade sem consequências. Essa mensagem alimenta novos ataques, enfraquece as instituições e encoraja os inimigos da liberdade.”
Sofía Jaramillo, diretora executiva da FLIP, lembrou que esta luta é também pela preservação da memória:
“A ausência de Julio Daniel e Jorge não é apenas uma perda para seus entes queridos. É uma perda para o país. É uma verdade que não chegou a tempo. E, mesmo assim, essa verdade ainda busca seu lugar.”
“A impunidade não é um destino. É uma escolha. E combatê-la exige vontade política, compromisso institucional e pressão social”, concluiu Mompotes. “Que o legado desses jornalistas inspire aqueles que continuam a exercer o ofício. Que sua memória nos lembre que informar é uma forma de servir. E que a justiça, embora tardia, possa — e deva — chegar.”
A SIP é uma organização sem fins lucrativos dedicada a defender e promover a liberdade de imprensa e a liberdade de expressão nas Américas. É composta por mais de 1.300 publicações no Hemisfério Ocidental e tem sede em Miami, Flórida, Estados Unidos.