09 Março 2012

Mortes de jornalistas no Brasil impõem discussão sobre coberturas e riscos

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O Brasil figura na lista dos países mais perigosos para os jornalistas. Mas, diferentemente do México e do Iraque, as causas de morte de profissionais no exercício da profissão nem sempre estão ligadas aos mesmos riscos. .
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O Brasil figura na lista dos países mais perigosos para os jornalistas. Mas, diferentemente do México e do Iraque, as causas de morte de profissionais no exercício da profissão nem sempre estão ligadas aos mesmos riscos. No México, é a ação impune dos narcotraficantes o motivo mais frequente de mortes. No Iraque, a busca pela notícia e pela melhor foto em um tempo em que ser jornalista não é mais salvo-conduto, e predomina a tendência ao jornalismo embedded (em que o repórter acompanha as tropas), faz com que os jornalistas se tornem alvos de bombas. Exemplos recentes colocaram em discussão o tipo de cobertura realizada pela imprensa escrita e falada e o comportamento de jornalistas mortos por conta de sua atividade profissional no Brasil. Em 6 de novembro de 2011, o cinegrafista da TV Bandeirantes e da TV Brasil Gelson Domingos da Silva, 46 anos, morreu após ter sido atingido por um tiro de fuzil quando fazia a cobertura de uma operação do Batalhão de Operações Policiais (BOPE) para combater o tráfico de drogas na Favela dos Antares, na zona oeste do Rio de Janeiro. Foi a primeira morte em confronto de um jornalista na guerra do tráfico no Brasil. Em 3 de janeiro de 2012, o radialista Laécio de Souza, 40 anos, foi assassinado com três tiros quando estava em um terreno de sua propriedade no município de Simões Filho, na região metropolitana de Salvador, distante cerca de 21 km da capital do Estado da Bahia. O que une estes dois casos, além da revolta de seus colegas e da sociedade pela forma violenta e injusta de suas mortes, é que ambos estavam expostos a um tipo de perigo que talvez pudesse ter sido evitado, embora os riscos fossem completamente diferentes. Silva estava na linha de tiro de um traficante, filmando o tiroteio com sua câmera, agachado atrás de um policial militar, em uma favela localizada na capital do Estado, cidade com uma população em torno de seis milhões de habitantes, sede dos maiores conglomerados de comunicação do país, cujas paisagens de cartão postal contrastam com as áreas mais pobres. Souza verificava as obras de um futuro galpão onde faria doações às pessoas carentes, em um terreno da pequena cidade com 120 mil habitantes que é cortada por rodovias e cercada por municípios de altas taxas de criminalidade. Além de repórter do programa Jornal da Sucesso, transmitido pela Rádio Sucesso FM do município de Camaçari, era também pré-candidato a vereador pelo partido PSL. Antes, havia trabalhado como locutor em lojas, anunciando ofertas. COMPORTAMENTOS DE RISCO X ATITUDES DE RISCO É aparentemente mais fácil entender o tipo de risco direto, visível a que o cinegrafista se submeteu do que a morte do radialista. "Naquele momento, Silva estava onde os outros dois cinegrafistas (que também estavam no local, próximo a um muro, do outro lado) gostariam de estar. Ele foi mais rápido, e chegou no ponto para captar a melhor imagem", descreveu a repórter da TV Bandeirantes Mônica Puga, dias após a morte do colega. "Aquele tiro foi colocado - de alguém que sabia atirar. E o Silva, por ser um cara alto - quase dois metros de altura -, por mais que se abaixasse, ficava em evidência", observou. Silva e os demais jornalistas haviam entrado junto com os policiais na favela porque o BOPE informou que a área estava dominada. Para Mônica, o que aconteceu foi uma mistura de fatalidade e descuido. "De certa forma, todos nós que cobrimos esta guerra não declarada do Rio de Janeiro acabamos formando um exército de destemidos", analisou. Até então, não havia acontecido nenhuma morte em situação semelhante a de Silva. Debates se seguiram à tragédia que vitimou o cinegrafista da TV Bandeirantes e durante um tempo alguns repórteres deixaram de entrar nas áreas de conflito com a polícia - tal como aconteceu após o assassinato do jornalista da TV Globo Tim Lopes, em 2002, na favela da Vila Cruzeiro, localizada dentro do complexo do Morro do Alemão, no Rio de Janeiro. Lopes foi assassinado e teve o corpo esquartejado depois de ser descoberto por traficantes quando fazia uma reportagem com uma câmera escondida. Pretendia denunciar a exploração de jovens, o consumo aberto de drogas e a ostentação de armas nos bailes funk. Dois fatos chamaram a atenção no caso recente do cinegrafista: o colete à prova de balas que Silva usava não era do tipo especial, com proteção contra tiro de fuzil, e, apesar de ter experiência neste tipo de cobertura, acabou atingido. "A experiência às vezes leva a cometer equívocos, porque a pessoa relaxa", disse João Antônio Barros, repórter geral do jornal O Dia, do Rio de Janeiro. Em entrevista ao programa Observatório da Imprensa, transmitido pela TV Brasil em 8 de novembro de 2011, o repórter Paulo Garritano, da TV Brasil, afirmou: "A maior das reportagens, a maior das imagens não vale o menor risco. Então isso tem que ser repensado. Temos o compromisso com a informação, isso a gente não pode perder nunca, agora precisamos criar caminhos de contar estas histórias sem expor nossos profissionais". A presidente atual do Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro, Suzana Blass, acrescentou: "A gente tem que parar de achar que cobrir confronto é natural. Não é, e é uma situação em que a gente tem que se respaldar muito. As empresas têm que investir em equipamento, treinamento e discussão de até onde o repórter pode ir. Será que o repórter cinematográfico tem o poder de dizer não, até ali eu não vou? Se o colega dele pega uma imagem melhor, é divulgado no vídeo, e aí ele vai ser cobrado por que ele não tem aquela imagem..." No mesmo programa, o vice-presidente do Grupo Bandeirantes, Frederico Nogueira, declarou: "É óbvio que a gente tem que ter todas as precauções na cobertura, mas o que a gente não pode perder é a indignação de um fato como aconteceu hoje. E o que gera a indignação e a dor deste momento é a cobertura jornalística da imprensa. Não podemos deixar de mostrar o que está acontecendo em qualquer lugar do Brasil e em qualquer cidade grande que tem uma violência como nós tivemos no Rio de Janeiro. E para isso é importante a presença da imprensa, senão isso não seria divulgado". O gerente de jornalismo da TV Brasil, Aziz Filho, que foi presidente do Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro, lembrou que a exigência do uso do colete nas coberturas do Rio de Janeiro foi um avanço conquistado após o assassinato de Tim Lopes. "O debate tem que ser permanente", avisou. O jornalista Alberto Dines, apresentador do Observatório da Imprensa, e com ampla experiência na profissão, salientou: Silva trabalhava na TV Band em um dos programas policiais mais sensacionalistas da tevê brasileira. "Atrás dele tinha uma máquina emocional empurrando para correr riscos", falou Dines. E acrescentou: "O problema é a competição exacerbada. Virou uma espécie de espetáculo, em que tiros, feridos, mortos fatura, dá audiência". Uma outra crítica feita no programa pelo Coordenador do Projeto de Controle de Armas da ONG Viva Rio, Antonio Rangel Bandeira, está ligada ao tipo de cobertura que Silva estava fazendo: um confronto polícia-bandidos onde prevaleceu a velha política de extermínio através do enfrentamento do problema militarmente - ao contrário da estratégia de retomada das áreas dos traficantes para posterior ocupação do espaço pelo Estado, implantada a partir de 2008 com as Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs) Neste caso que resultou na morte de Silva, afirmou Bandeira, houve uma sucessão de erros: a polícia havia sido informada de que a área estava apaziguada. "Essa política acaba em tragédia. A boa polícia é a que investe em inteligência". O argumento de que, se a imprensa não estiver junto com a polícia, é mais fácil acontecerem abusos contra a população é usado por jornalistas para justificar sua presença na área de risco. "Talvez se tivesse que rediscutir a forma de fazer jornalismo", insistiu Mônica. Ir depois dos policiais, garantir que os órgãos de denúncias funcionem de verdade, e manter o anonimato nas denúncias poderia ser uma alternativa, acredita. O mais irônico é que, passados sete dias da morte que provocou esta discussão, um outro fato praticamente fez os jornalistas esquecerem a dor, os questionamentos e a indignação, e retornarem ao trabalho: em 13 de novembro de 2011, a polícia fez uma mega operação nas favelas Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu, ocupando as áreas para preparar a instalação de mais uma UPP. "É tão doido que acabou de morrer um colega, logo depois veio uma tomada e, como em todo fato jornalístico, um vai engolindo o outro", desabafou a repórter. Na cobertura da tomada destas favelas, Mônica cruzou com o fotógrafo Antonio Scorza, 54 anos, 32 de fotojornalismo e há 26 na France Presse - um dos poucos que usava um pesado colete à prova de tiros de fuzil. Scorza estava viajando quando o cinegrafista foi morto. As cenas que viu depois, pela televisão, do momento em que Silva foi baleado e caiu, fizeram Scorza enfatizar: "As empresas têm que fornecer o equipamento, que chamam de segurança ativa, e treinamento, que chamam de segurança passiva. Sem estes cursos não adianta nada: nem colete, nem carro blindado. E o curso sem equipamento também não adianta". O curso não ensina apenas onde se esconder ou como prestar os primeiros socorros, disse Scorza, mas também mostra o poder de alcance e destruição das armas: "Você vai ver que contra um fuzil pode estar atrás de um carro, de uma parede... não adianta nada". É por isso que, quando lhe perguntaram "Já ficou preso em situações complicadas?", ele respondeu: "Já fiquei, mas não por escolha minha. Aconteceu uma ou duas vezes: lugares que estavam totalmente pacíficos e de repente não estavam mais. É parte do jogo de mutação que acontece nestas situações o tempo todo. Mas não foi por uma escolha própria. Acontecendo o enfrentamento, eu tô fora". A lista dos comunicadores assassinados no Brasil inclui mais casos parecidos com o de Souza do que o de Silva. Dois dias após o assassinato de Souza, a polícia apreendeu um adolescente que confessou o crime. O jovem de 16 anos afirmou que matou Souza porque, meses antes, o radialista o havia denunciado à polícia por delitos cometidos. Mas o delegado Antonio Fernando Soares do Carmo, titular da 22º Delegacia Territorial (DT), encarregado das investigações, não estava convencido de que a motivação estaria ligada à atuação profissional do radialista. Uma outra hipótese era que teria sido morto a mando de traficantes - informações colhidas pela polícia indicaram que Souza havia sido ameaçado por integrantes do tráfico que não queriam que continuasse com seus trabalhos beneficentes naquela área. A região tem um forte tráfico de drogas. "Falta presença do Estado no local", falou o delegado à SIP. Em fevereiro de 2012, outro jovem foi encontrado morto com um bilhete sobre o corpo onde dizia: "Matou o radialista Laécio de Souza. Vingança!". Em março de 2012, dois traficantes de drogas da região tiveram a prisão preventiva decretada por suspeita de participação no crime do radialista. Como Souza, outros repórteres que atuam longe dos grandes centros urbanos, em meios de comunicação que não contam com o apoio de empresas ou redes fortes, sofrem mais facilmente ameaças. No capítulo sobre o Brasil da publicação Mapa de Riscos para Jornalistas, editada pela Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), jornalistas de vários pontos do vasto território brasileiro descreveram situações diferenciadas que os colocaram na mira de pistoleiros. As causas vão desde denúncias contra traficantes, bem como reportagens e comentários na rádio contra policiais e políticos envolvidos em falcatruas e roubos, até suspeitas de chantagem (que teria sido feita pelo jornalista). Há casos de radialistas e repórteres de jornais que se tornaram comunicadores sem passar por uma faculdade ou qualquer outro curso de formação, que mesclam o trabalho com a atividade política e assistencialista, e que vendem publicidade para manter os meios de comunicação em que atuam. Assim como o cinegrafista que se coloca na linha de tiro em um momento de confronto entre policiais e traficantes, o comunicador que atua em vários lados, ora assumindo como político e tomando partido, ora usando o próprio meio de comunicação para esse fim ou para outros que nada têm a ver com a prática jornalística, também fica em perigo. E da mesma forma como em coberturas de conflitos armados cabe ao jornalista estabelecer os limites para o risco, também na área de comportamento ele deve ter em mente o valor da ética e de uma conduta de acordo com as regras básicas da comunicação: ouvir todos os lados, documentar denúncias, evitar a promiscuidade com as fontes. A distância das capitais influi bastante. Há lugares no interior em que a proximidade do denunciado com o denunciante é tão grande, que se confunde com questões pessoais, vira briga de rua. Na zona de fronteira predominam os crimes de pistolagem e a impunidade dos agressores - sobretudo dos autores intelectuais, aqueles que mandam matar. Tudo isso contribui para o aumento de casos de jornalistas assassinados e ameaçados no Brasil. JORNALISMO DE RISCO + JORNALISMO DE RESULTADOS O jornalismo de risco poderia ser dividido, então, em duas linhas: comportamento de risco quando um repórter avança em uma área de conflito sem equipamentos de proteção ou treinamento para obter a melhor história, é ameaçado, ou insiste com sua reportagem sem tomar precauções; e atitude de risco, quando o repórter (ou radialista, ou editor - aquele que faz o papel de comunicador) toma partido, usa o meio de comunicação para ganhar prestígio ou vantagens, ou atua de forma pouco ética. Para evitar comportamentos de risco existem cursos oferecidos por entidades e sindicatos que abordam desde técnicas de deslocamento, primeiros socorros, identificação de armamentos, até orientação sobre como se portar em determinadas situações e se proteger. Mas pouco se discute, no Brasil, sobre as atitudes de risco. Javier Darío Restrepo, que realiza as Oficinas de Ética Jornalística da Fundação para um Novo Jornalismo Iberoamericano (FNPI) da Colômbia, entidade criada pelo escritor Gabriel García Márquez, declarou que "a ética humaniza; tudo o que nos desumaniza deixa de ser ético". A ética como guia para os jornalistas é, portanto, uma arma poderosa contra retaliações e atentados. "Quando a gente faz um trabalho honesto, sério, até os mafiosos e os traficantes respeitam a tua posição e respeitam o teu trabalho", constatou o repórter Candido Figueiredo Ruiz, correspondendo do jornal ABC Color em Pedro Juan Caballero, na fronteira do Paraguai com o Brasil. Para Figueiredo, que há mais de 20 anos vive com guarda-costas por causa de suas denúncias contra traficantes da região - sua casa já foi metralhada -, "jornalista tem que ter integridade e um pouco de coragem, também, porque tem que trabalhar pensando que pode sofrer um atentado". Quando, em janeiro de 2012, ele foi avisado pela polícia brasileira que haviam interceptado uma ligação de um narcotraficante paraguaio que combinava seu assassinato, Figueiredo redobrou os cuidados. "Desta vez é diferente. O traficante não ligou para ameaçar, falou para outro que ia me matar", avaliou. Segundo o jornalista, trata-se de uma pessoa sem formação, que não dimensiona as consequências de seus atos, e aí é que reside o maior perigo. E, por fim, uma outra forma de prevenir e evitar mortes é lutar contra a impunidade. A experiência da Unidade de Resposta Rápida (URR) da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), que acompanha os casos de jornalistas assassinados no exercício da profissão, indica que uma das formas de combater os riscos e prevenir novas mortes passa também pelas técnicas do "Jornalismo de Resultados". Esta forma de Jornalismo, que não está classificada em nenhum livro, consiste em uma atitude e uma prática, mais do que uma teoria ensinada nas faculdades. Utilizado pelas repórteres da URR e por outros jornalistas no mundo, o chamado "Jornalismo de Resultados" trata de apurar os dados e investigar o contexto em que os crimes ocorrem, como numa grande reportagem investigativa, mas não para por aí. Segue cobrando das autoridades condenações, prisões e demais providências sistematicamente, de forma que os encarregados de apurar os fatos (juízes, promotores, advogados) se sentem prestigiados e vigiados, e passam a atuar de forma mais efetiva e rápida para dar as respostas ao repórter mas, principalmente, à sociedade. A rede internacional de computadores (Internet), através das redes sociais (Facebook e twitter), tem facilitado a difusão de informações sobre assassinatos, ameaças e agressões. Tão logo ocorre um destes casos, a notícia se espalha rapidamente. Isso nem sempre acontece com correção ou checagem de dados - na maior parte das vezes, a informação é simplesmente repassada tal qual foi recebida -, o que pode incorrer em erros. No entanto, é através desse comportamento ousado de fazer vir à tona quase tudo, que a rede virtual têm funcionado para suprir uma função que os jornalistas de veículos impressos, de rádio ou televisão não têm conseguido cumprir. O "Jornalismo de Resultados" nada mais é do que exercer plenamente a função jornalística. Muitos podem argumentar que já faz parte do trabalho fazer o seguimento da denúncia, com a suíte ou matéria do dia seguinte, que é onde se espera colher os resultados - desafio para os repórteres que são atropelados no dia a dia pela cobertura factual. A diferença do chamado "Jornalismo de Resultados" é a demanda insistente por respostas que provoquem mudanças reais, a longo prazo, sem deixar que o assunto caia no esquecimento. Inclui denúncia, indignação, responsabilização. Não basta denunciar uma vez e repercutir por um tempo. Consiste em denunciar sempre e repetir até que o caso seja solucionado. E analisar e questionar de forma mais contextualizada e profunda, dentro dos limites da ética e da responsabilidade, a realidade atual, em todos os níveis e sentidos, para que a sociedade como um todo seja beneficiada. REFERÊNCIAS: - Restrepo, Javier Darío - El zumbido y el moscardón. Taller y consultorio de ética periodística. México: FCE, FNPI, 2004 - Consultório Ético: http://www.fnpi.org/consultorio-etico/ - Mapa de Riscos para Jornalistas http://www.centrodepublicaciones.com/index.php?showlibro=133 - Projeto Impunidade - Unidade de Resposta Rápida da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) - Casos por país http://www.impunidad.com/casos_por_pais.php?idioma=sp

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