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Transformação radical.

Os desafios da IA nos meios de comunicação: adoção, governança e modelo econômico

Um dos principais pontos de fricção identificados é a lacuna entre o uso cotidiano da tecnologia e a falta de marcos institucionais.

Por  Julieta Long
23 de abril de 2026 - 16:00

O avanço da Inteligência Artificial (IA) deixou de ser uma promessa para se tornar o eixo central de uma transformação radical nas redações de todo o mundo.

Durante a Reunião de Meio de Ano da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), especialistas da Europa e da América Latina concordaram que, embora a IA ofereça ferramentas inéditas para a inovação, também levanta desafios existenciais relacionados à propriedade intelectual, à relação com as audiências e à sustentabilidade financeira dos meios de comunicação.

Da adoção individual à estratégia ética

Um dos principais pontos de fricção identificados é a lacuna entre o uso cotidiano da tecnologia e a falta de marcos institucionais. Claudia Báez, estrategista em inovação digital e IA, afirmou que há uma “democratização” do uso individual da IA por parte dos jornalistas, mas uma alarmante ausência de políticas corporativas.

Segundo um estudo da Thomson Reuters Foundation, 84% das organizações já utilizam inteligência artificial, mas apenas 13% contam com diretrizes éticas claras. “Não basta ter um documento; é necessário que a redação o aplique e leve em conta quais são as linhas vermelhas ao utilizar a IA”, afirmou Báez.

Para Miguel Carvajal, diretor do Mestrado em Inovação em Jornalismo da Universidade Miguel Hernández, o risco não está na tecnologia em si, mas na “adoção sem critério”. Carvajal enfatizou que o valor fundamental do jornalismo — sua capacidade de hierarquizar, verificar e surpreender — nunca deve ser delegado a uma máquina.

“Neste momento, não se pode quebrar a confiança com as audiências, e essa confiança é protegida com a adoção da IA de maneira responsável”, comentou Báez.

O “apocalipse do tráfego” e a batalha pelos conteúdos

A indústria jornalística enfrenta uma crise compartilhada que exige, mais do que nunca, pensamento e ação coletiva: o chamado “apocalipse do tráfego”. Assim afirmou Paula Miraglia, diretora da Momentum (Brasil). “Hoje, as audiências já não chegam aos sites de notícias, aumentando a relação de dependência com as grandes plataformas, marcada por uma forte assimetria de poder”, destacou Miraglia.

Nesse sentido, Iacob Carvalho Gammeltoft, Senior Policy Manager da News Media Europe, afirmou que os serviços de IA representam uma ameaça existencial ao jornalismo. Segundo um estudo da GfK, apenas 0,23% das sessões em serviços de IA geram tráfego para os meios de comunicação.

A luta contra as plataformas

Diante desse cenário, o debate sobre como cobrar pelo uso de conteúdos informativos para treinar modelos de IA torna-se urgente. “Apenas 7% dos editores no Brasil bloqueiam o uso de seu conteúdo para o treinamento de IA, o que demonstra a necessidade de uma estratégia de propriedade intelectual”, comentou Miraglia.

Quanto ao marco legal na Europa, embora existam direitos exclusivos como o direito autoral e a legislação de concorrência, na prática muitas vezes as empresas de tecnologia ignoram essas normas. Além disso, muitas leis ficam rapidamente desatualizadas diante dos avanços tecnológicos.

Os especialistas concordam que acordos individuais podem enfraquecer o mercado e gerar a ilusão de que o problema “está resolvido”. Por isso, é fundamental trabalhar de forma conjunta para enfrentar os desafios da era digital.

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