Miami (19 de agosto de 2026) — A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) expressa sua profunda preocupação e condena a prolongada perseguição judicial enfrentada pela jornalista investigativa peruana Paola Ugaz Cruz, alvo, desde 2018, de múltiplas ações judiciais relacionadas às suas investigações sobre o Sodalício de Vida Cristã e outros assuntos de interesse público, que representam um padrão sistemático de intimidação contra seu trabalho jornalístico.
A mais recente ocorreu esta semana, quando a Asociación Civil San Juan Bautista (ACSJB) apresentou uma queixa por difamação agravada contra Ugaz por publicações que, segundo a instituição, contêm afirmações falsas, imprecisões e acusações sem fundamento que teriam afetado sua honra e reputação. A acusação se soma ao processo por suposto enriquecimento ilícito iniciado contra a jornalista em abril de 2023 por Luciano Revoredo, diretor do portal La Abeja, bem como a outras denúncias criminais apresentadas nos últimos anos, entre elas por difamação agravada e lavagem de dinheiro.
Desde 2018, Ugaz enfrenta uma sucessão de acusações e processos que, segundo seus representantes legais, têm gerado constante pressão financeira e profissional, além de campanhas de difamação, assédio digital, ameaças e violações de sua privacidade relacionadas ao seu trabalho jornalístico.
“O atropelo contra o meu trabalho jornalístico de 2018 a 2026 continua. Fui alvo do que considero perseguição judicial por parte do Sodalício há oito anos, por ter investigado sua gestão financeira”, afirmou Ugaz ao tomar conhecimento da nova ação judicial apresentada contra ela. Embora o Sodalício não tenha sido o autor direto dessas ações, os processos foram promovidos por pessoas vinculadas ou próximas ao grupo católico, suprimido pela Santa Sé em 2025, entre outras razões, por “comportamento sectário” e ausência de um carisma de origem divina.
A SIP ressaltou que a sucessão de processos contra uma jornalista em razão do conteúdo de investigações de interesse público representa uma grave forma de pressão sobre o exercício profissional. Além de impor uma carga econômica, pessoal e profissional, esse tipo de litigância pode gerar um efeito inibidor sobre outros jornalistas que investigam instituições ou pessoas com poder econômico, político ou religioso.
Após uma reportagem da Al Jazeera da qual a jornalista não participou nem teve qualquer influência editorial, três pessoas relacionadas ao Sodalício tomaram medidas judiciais contra ela: Carlos Alberto Gómez de la Torre, integrante da Asociación Civil San Juan Bautista, cujas denúncias foram arquivadas ou prescreveram; José Antonio Eguren, ex-arcebispo de Piura e Tumbes e membro do Sodalício, que desistiu de uma queixa por difamação após a intervenção da Santa Sé; e Revoredo, do La Abeja, apontado por seus vínculos com o entorno do Sodalício.
Para a SIP, causa especial preocupação uma ordem judicial emitida em 2023 e mantida em sigilo, da qual Ugaz e sua representação legal só tiveram conhecimento em 2024. A medida determinou o levantamento do sigilo de suas comunicações e exigiu que empresas de telecomunicações fornecessem informações sobre as comunicações mantidas pela jornalista entre 1º de janeiro de 2013 e 30 de dezembro de 2020. A vigilância das comunicações de uma jornalista e qualquer medida que possa comprometer a confidencialidade de suas fontes representam sérias ameaças à liberdade de imprensa e ao exercício do jornalismo investigativo.
“Quando processos judiciais, leis de difamação criminal e mecanismos administrativos são utilizados não para garantir a justiça, mas para silenciar o escrutínio, a litigância estratégica se transforma em uma ferramenta de controle destinada a desgastar e intimidar vozes independentes”, advertiu o presidente da SIP, Pierre Manigault.
Manigault, do Evening Post Publishing Inc., de Charleston, Carolina do Sul, Estados Unidos, acrescentou: “Nenhum jornalista deveria ser submetido a uma cadeia interminável de processos por investigar e publicar assuntos de evidente interesse público. Quando o sistema judicial é utilizado para desgastar financeiramente, intimidar ou desacreditar uma jornalista, a liberdade de imprensa está sendo diretamente atacada”.
Por sua vez, a presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa e Informação da SIP, Martha Ramos, da Organización Editorial Mexicana (OEM), afirmou: “O caso de Ugaz demonstra os graves riscos enfrentados pelo jornalismo investigativo quando aqueles que exercem o poder ou dispõem de recursos utilizam os tribunais para perseguir aqueles que os investigam. Pretender acessar as comunicações de uma jornalista e comprometer a confidencialidade de suas fontes constitui uma ameaça particularmente grave ao exercício da profissão”.
Os dirigentes da SIP instaram as autoridades peruanas a impedir a instrumentalização do sistema de justiça contra jornalistas em razão do conteúdo de suas investigações e a garantir que qualquer medida que possa afetar a confidencialidade das fontes jornalísticas esteja sujeita a critérios rigorosos de legalidade, necessidade e proporcionalidade.
Enquanto isso, Ugaz confia que “as instâncias judiciais do Peru farão todo o possível para proteger o Estado de Direito no país e colaborarão com outras instâncias internacionais, como a Santa Sé, em sua luta contra a corrupção econômica e financeira internacional”.
Uma missão internacional da SIP que visitou o Peru em 2025 alertou sobre “a crescente hostilidade contra os meios de comunicação independentes, a perseguição judicial a jornalistas críticos e o uso sistemático de desinformação e ataques nas redes sociais”, práticas que, segundo a organização, geram um ambiente adverso para o exercício da profissão.
A SIP é uma organização sem fins lucrativos dedicada à defesa e à promoção da liberdade de imprensa e de expressão nas Américas. É formada por mais de 1.300 veículos de comunicação do hemisfério ocidental e tem sede em Miami, Flórida, Estados Unidos.