Por: Mariana Belloso
O jornalismo de opinião, capaz de fornecer contexto, crítica e um nível mais profundo de análise, é uma ferramenta fundamental para combater a simplificação excessiva e reconquistar a atenção do público.
Por: Mariana Belloso
O avanço do populismo, a erosão institucional e a crescente pressão sobre a liberdade de expressão foram três dos temas do painel “As Américas diante da encruzilhada: democracia, poder e liberdade de expressão”, realizado durante a Reunião Semestral da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP). O encontro reuniu o politólogo Javier Corrales (Amherst College) e o jornalista Boris Muñoz, fundador da seção de Opinião do The New York Times em espanhol, com moderação de Daniel Dessein (La Gaceta, Argentina).
Corrales fez uma análise estrutural do fenômeno populista, que definiu como inerentemente hostil aos especialistas, indiferente aos processos democráticos e propenso ao extrativismo. Esse padrão, sustentou ele, não só se repete na América Latina, mas hoje também se manifesta na política externa dos Estados Unidos, onde o populismo deixa de atuar como contenção para se tornar facilitador de práticas antiliberais na região.
Corrales destacou que essa virada tem consequências diretas sobre a governança e a liberdade de imprensa. “Quando o populismo controla partidos personalizados, aparelhos a serviço de um líder, aumenta enormemente sua capacidade de enfraquecer a democracia liberal”, explicou.
Continuismo e ruptura
Na América Latina, essa tendência se manifesta por meio de duas forças aparentemente opostas, mas complementares: o continuismo (reeleições, ex-presidentes, os chamados “herdeiros” ou indicados pelo presidente cessante e dinastias políticas) e a ruptura, encarnada em “outsiders” sem experiência política. Ambos, alertou ele, geram sistemas políticos personalistas que colocam pressão nas instituições e amplificam os ataques contra a imprensa.
Muñoz transferiu a análise para o cenário norte-americano, onde alertou sobre um clima de nacionalismo identitário que vem normalizando a intimidação contra a mídia. Ações judiciais milionárias, pressões econômicas e discursos que apresentam o jornalismo como “inimigo do povo” geram, disse ele, um ambiente de autocensura e cautela editorial. “Não é pânico, mas sim um clima de medo que condiciona o que é publicado e como é publicado”, observou.
A partir de sua experiência como jornalista venezuelano no exílio, Muñoz traçou paralelos. Ele lembrou que, na Venezuela, a deterioração começou com a estigmatização do jornalismo, seguiu com marcos legais restritivos e terminou em um controle sistemático da informação. “É possível tirar o ditador e deixar a ditadura”, observou, em referência à saída de Nicolás Maduro do poder, mas à continuidade do regime chavista no controle do país.
Tecnologia e propaganda
Ambos os participantes do painel concordaram que a desinformação contemporânea faz parte de uma estratégia baseada em algoritmos e modelos de negócios que valorizam a raiva, a repetição e o ruído. Corrales acrescentou que o uso das tecnologias permitiu que candidatos sem infraestrutura política prévia chegassem ao poder, enquanto Muñoz alertou que as plataformas digitais exploram deliberadamente a polarização como motor de lucratividade.
O painel também identificou oportunidades. Para Muñoz, o jornalismo de opinião, capaz de acrescentar contexto, crítica e um segundo nível de análise, é uma ferramenta fundamental para combater a simplificação extrema e recuperar a atenção do público. Além disso, ele pediu que se explore a inteligência artificial sem medo nem fascínio, como aliada para a verificação de fatos, a inovação narrativa e o alcance de novos públicos, especialmente nas redes sociais.
O painel concluiu que a liberdade de expressão nas Américas enfrenta um ciclo prolongado de tensão, alimentado por lideranças personalistas e um ecossistema informativo cada vez mais fragmentado. Nesse contexto, concordaram os participantes do painel, o jornalismo deve resistir, redefinir sua estratégia, fortalecer sua credibilidade e assumir um papel ativo na defesa da democracia.