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Meios latino-americanos.

A IA deve estar a serviço da qualidade jornalística

Representantes de La Nación, El Tiempo e ABC Color concordaram que a inteligência artificial deve estar a serviço da qualidade jornalística, da eficiência das redações e das audiências, enquanto aumentam as preocupações com a distribuição de conteúdo e a sustentabilidade do negócio informativo.

29 de julio de 2026 - 16:46

A adoção da inteligência artificial nas redações já não é uma discussão sobre o futuro, mas sobre como responder a uma transformação que ocorre em tempo real. No entanto, além do entusiasmo tecnológico, os meios latino-americanos enfrentam desafios relacionados à confiança das audiências, aos modelos de negócio e ao controle sobre seus conteúdos.

Esse foi um dos principais consensos durante o painel “A era da IA: como os meios de comunicação estão se reinventando”, que reuniu Juan Simo, editor-chefe e referência em IA do La Nación (Argentina); José Carlos García, editor multimídia e gerente de novos negócios do El Tiempo (Colômbia); e Natalia Daporta, gerente de Redação Digital do ABC Color (Paraguai), com mediação de Rodrigo Salazar, diretor executivo do Conselho da Imprensa Peruana.

Vantagem ou necessidade?

Para Juan Simo, os meios de comunicação atravessam um momento decisivo. O acesso generalizado às ferramentas de inteligência artificial democratizou capacidades tecnológicas que antes estavam restritas às grandes organizações.

“Qualquer meio, independentemente de seu tamanho, pode implementar algum tipo de tecnologia de IA”, afirmou. No entanto, alertou que essa disponibilidade significa que a tecnologia, por si só, já não representa uma vantagem competitiva. A diferença estará na forma como cada organização a integrar aos seus processos editoriais e produtivos.

Ele identificou quatro tendências que estão redefinindo o ecossistema informativo: a expansão das capacidades generativas, o crescimento dos bots como consumidores de conteúdo, a desintermediação entre meios e audiências e o surgimento de agentes autônomos capazes de intervir na produção e distribuição de informação.

Os três painelistas apresentaram experiências avançadas de adoção de IA e concordaram que o jornalismo continua sendo uma atividade essencialmente humana.

“A inteligência artificial não faz jornalismo”, afirmou José Carlos García. “Ela pode recriar textos, imagens ou músicas, mas as decisões editoriais e criativas continuam sendo responsabilidade das pessoas.”

No El Tiempo, explicou, a IA é concebida como uma ferramenta de apoio, dentro do que descreveu como uma abordagem “Homem de Ferro”: uma armadura que amplia capacidades, mas que sempre precisa de uma pessoa em seu interior para tomar decisões.

Natalia Daporta expressou uma visão semelhante. “É importante que mantenhamos sempre o ser humano no controle”, afirmou. “A tecnologia está a nosso serviço, e não o contrário.”

As três organizações compartilharam exemplos concretos de implementação.

No La Nación, a estratégia combina infraestrutura tecnológica, capacitação e transformação cultural. O meio desenvolveu ferramentas próprias para automatizar o monitoramento de notícias, processar grandes volumes de informação, facilitar buscas semânticas em seu arquivo e auxiliar jornalistas em investigações complexas.

Entre os projetos destacados estão a análise automatizada de centenas de horas de discursos do presidente Javier Milei e a criação de avatares digitais baseados em jornalistas do veículo para explicar previsões estatísticas durante competições esportivas.

No El Tiempo, a primeira etapa concentrou-se em governança e capacitação. A organização identificou que cerca de 70% da redação já utilizava ferramentas de IA antes da existência de uma estratégia formal.

A partir desse diagnóstico, criou uma equipe especializada, estabeleceu políticas de uso e desenvolveu ferramentas internas para monitorar tendências, facilitar coberturas de última hora e adaptar conteúdos para múltiplas plataformas.

Por sua vez, o ABC Color apresentou uma solução desenvolvida para resolver um problema cotidiano: a gestão de seu arquivo fotográfico. A ferramenta, denominada ABC Vision, utiliza reconhecimento facial, identificação de objetos, geolocalização e geração automática de metadados para catalogar imagens automaticamente. A iniciativa reduziu significativamente o tempo dedicado à busca por fotografias e alcançou uma adoção próxima de 90% na redação.

Cultura antes da tecnologia

Além das ferramentas, o painel dedicou boa parte da discussão aos desafios organizacionais. Os três participantes concordaram que o principal obstáculo costuma ser cultural, e não tecnológico.

Para Simo, a chave está em envolver os jornalistas desde o início e concentrar-se na solução de problemas concretos de cada equipe. “A inovação é como um elástico: se você não continuar esticando, ele volta para trás”, afirmou.

García destacou a importância de reconhecer a diversidade geracional dentro das redações e acompanhar a transformação com programas permanentes de capacitação e certificação.

Daporta ressaltou que é fundamental explicar claramente os objetivos de cada iniciativa para facilitar a adoção e reduzir as resistências à mudança.

A conversa também abordou uma preocupação crescente na indústria: o uso de conteúdos jornalísticos por plataformas e modelos de inteligência artificial. Os painelistas concordaram que o debate sobre compensação financeira está apenas começando.

Simo levantou questionamentos sobre como recuperar valor em um cenário no qual agentes de IA consomem e redistribuem informações sem que os usuários acessem diretamente os sites de notícias.

Do El Tiempo, García afirmou que a indústria deve promover uma discussão coletiva com as grandes plataformas tecnológicas.

“A magia da IA foi construída a partir do treinamento com conteúdos produzidos por todos nós”, afirmou. “É uma conversa que a indústria precisa conduzir de forma conjunta.”

Daporta concordou que nenhum meio de comunicação individual tem capacidade suficiente para enfrentar esse desafio sozinho. “Deve ser um esforço coletivo”, concluiu.

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