Por Julieta Long
Duas especialistas em inovação digital traçaram um roteiro claro para os meios de comunicação que buscam sobreviver e prosperar na era da inteligência artificial.
Por Julieta Long
No âmbito do evento SIPConnect, duas especialistas em inovação digital traçaram um roteiro claro para os meios de comunicação que buscam sobreviver e prosperar na era da inteligência artificial. A conclusão é unânime: não basta “usar” ferramentas; o sucesso reside em uma integração estratégica e em uma mudança profunda na forma como entendemos quem consome nossas notícias.
Claudia Báez, estrategista em inovação digital e membro da Fathm, alertou sobre um fenômeno comum nas redações: a experimentação sem direção. Segundo Báez, existe uma diferença entre simplesmente usar uma ferramenta e realizar uma integração real no veículo.
“A confusão entre usar e integrar custa dinheiro, tempo e credibilidade”, afirmou. Para a especialista, muitos meios estão presos em um ciclo de “muita atividade e pouca mudança”: testam uma ferramenta, lançam um piloto com entusiasmo, mas sem medições nem impacto real.
Báez sustentou que a lacuna entre “usar” e “integrar” é um problema de liderança e governança, e não técnico. Para superar a fase de testes piloto, a especialista propõe considerar cinco pilares fundamentais:
Como exemplo de sucesso, ela citou o caso do Chequeado, na Argentina, e seu projeto Nunchi. Não se trata apenas de um bot de IA, mas de uma infraestrutura que “escuta” milhares de comentários em redes e plataformas, os classifica por sentimento e intenção e entrega sínteses acionáveis diretamente no Slack, para que os editores tomem decisões em tempo real sobre sua reputação e eventuais erros editoriais. O objetivo não foi construir uma ferramenta, mas um sistema.
Por sua vez, Adriana Lacy, fundadora da Adriana Lacy Consulting, instou os meios de comunicação a repensarem sua relação com o público. Lacy argumenta que as redações ainda descrevem suas audiências de forma demográfica (idade, localização), enquanto os sistemas de IA já as compreendem de forma situacional.
“Por 20 anos, conhecer sua audiência significava saber quem eram. Mas, a partir de agora, isso realmente significa entender em que situação elas se encontram. Trata-se de compreender o que é verdadeiramente importante nesse contexto e como podemos oferecer informação valiosa”, explicou Lacy.
Segundo a especialista, mecanismos de busca e chatbots não processam a identidade da mesma forma que as redes sociais; eles priorizam o contexto e a intenção do usuário.
Para ajudar os meios nessa transição, Lacy apresentou o framework TCI (Task, Context, Intent):
Para ilustrar esse modelo, Lacy propôs imaginar um cenário crítico em que uma grande tempestade está prestes a atingir uma comunidade. Enquanto a abordagem demográfica tradicional apenas descreve idade ou local de residência, a aplicação do framework TCI permite ir além das estatísticas e oferecer um jornalismo verdadeiramente útil.
Dessa forma, a cobertura evolui desde a tarefa geral de manter a segurança do lar, com guias de evacuação e informações de trânsito, até considerar o contexto específico de um leitor que vive em uma área sujeita a enchentes e precisa buscar seus filhos na escola.
O futuro do jornalismo exige um esforço duplo. Por um lado, aprender a integrar a inteligência artificial de forma estrutural — uma mudança que, como destacou Báez, deve ser liderada pela alta direção para evitar que a tecnologia permaneça na periferia da redação.
Por outro lado, os meios de comunicação devem aproveitar sua principal vantagem competitiva diante dos algoritmos: o profundo conhecimento de suas audiências. Como afirmou Lacy: “Vocês conhecem suas comunidades muito melhor do que esses mecanismos de busca jamais poderiam conhecer”. A chave é unir essa integração tecnológica à proximidade humana para oferecer um valor único.