Quem mandou matar Dom Phillips e Bruno Pereira?

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Assassinato na Amazônia lembra crime contra jornalista Tim Lopes
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PELO FIM DA IMPUNIDADE

Por Clarinha Glock

Há uma macabra semelhança entre o assassinato do jornalista Tim Lopes, há 20 anos, também em um mês de junho, e a possível forma como teriam sido assassinados o indigenista Bruno Pereira e o jornalista Dominic (Dom) Phillips. Até dia 16 de junho, o que se sabe é que uma pessoa confessou ter esquartejado e queimado os corpos dos dois.

Em 2 de junho de 2002, o jornalista da TV Globo Tim Lopes, que fazia uma reportagem disfarçado na favela da Vila Cruzeiro, no Rio de Janeiro, para denunciar o poder do narcotráfico, desapareceu. Por ser da TV Globo, este fato mobilizou os meios de comunicação. Em uma fase ainda iniciante das redes sociais, restava a seus colegas – que passaram também a ser ameaçados quando faziam coberturas do narcotráfico nas regiões de domínio destes grupos criminosos – se mobilizar para pressionar que a polícia encontrasse os culpados e a justiça, exemplarmente, os punisse. Neste movimento surgiu a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), para dar continuidade ao trabalho de Lopes e aprofundar cursos de segurança para jornalistas. A Abraji cresceu e ampliou seu espectro de lutas. Os envolvidos na morte de Tim Lopes foram presos e confessaram que o haviam torturado e esquartejado o seu corpo, que depois foi queimado no "microondas", como chamavam os pneus. O "microondas" era conhecido pelos jornalistas que cobriam narcotráfico nas favelas como método de punição de X-9 (informantes).

Trabalhei entre 2000 e 2015 para o projeto Impunidade, da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), investigando jornalisticamente casos impunes de comunicadores e comunicadoras assassinados depois de terem feito denúncias em seus meios de comunicação contra autoridades ou pessoas de influência e poder na região. O Projeto Impunidade da SIP promovia cursos de proteção para jornalistas em ambientes hostis e investigações jornalísticas deste tipo também no México, na Colômbia e na Argentina.

Como integrante da Unidade de Resposta Rápida do Projeto Impunidade da SIP, relatei mais de 20 casos de jornalistas assassinados e ameaçados no Brasil, alguns dos quais foram enviados à Comissão Interamericana de Direitos Humanos porque haviam sido encerrados pela justiça brasileira sem chegar aos mandantes. Os crimes contra comunicadores na região amazônica, entre os anos 1980 e 2000, foram perpetrados no contexto urbano, na forma de ameaças, violência física, difamações, processos na Justiça, tiros, mas a apuração não apontou nenhum assassinato de jornalista com esquartejamento de corpo, seguido de incineração, dentro da floresta amazônica.

O assassinato de Dom Phillips, jornalista do The Guardian, deu ampla visibilidade às ameaças e aos crimes contra defensores e defensoras de direitos humanos. Pessoas que, como o indigenista Bruno Pereira, morreram, e outros que seguem ameaçadas devido à ação criminosa de garimpeiros, madeireiros, mineradoras, com incentivo do Governo Federal. Assim como no caso de Tim Lopes, em que foi preciso a mobilização da imprensa nacional e internacional para pressionar a se chegar aos culpados, foram os indígenas e os meios de comunicação que pressionaram e se empenharam nas buscas nos primeiros dias, desde o desaparecimento de Dom e Bruno em 5 de junho de 2022.

O que mudou? Se sabe que matar jornalista é ruim para o tráfico, porque atrai atenção e atrapalha os negócios. Mas a coragem de matar um jornalista estrangeiro neste momento em que comunicadores e comunicadoras são ameaçados pela principal autoridade do Brasil é um outro tipo de intimidação e mensagem. Há uma autorização implícita quando um governo difama, ameaça e impede jornalistas de noticiarem fatos.

Reportagens recentes indicam que o narcotráfico também está atuando na Amazônia. Em artigo publicado no site Piauí, Aiala Couto, professor e pesquisador da Universidade do Estado do Pará e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, informa que o Amazonas e o Pará se tornaram locais de atuação de grupos criminosos regionalizados, como Família do Norte (FDN-AM) e Comando Classe A (CCA-PA). "A rota do Rio Javari, onde o jornalista e o indigenista foram vistos pela última vez, é hoje uma das mais complexas pelo fato de ter a presença da facção Os Crias – um grupo criminoso que surgiu no ano passado, de uma dissidência de membros da FDN. Os Crias se estabeleceram na Tríplice Fronteira (Brasil-Peru-Colômbia) e controlam a mais importante rota utilizada por narcotraficantes peruanos", diz no artigo.

Os executores e inclusive o mandante da morte de Tim Lopes foram julgados, condenados e presos. Seu assassinato se tornou um marco porque, a partir dele, várias entidades de defesa de direitos humanos e de liberdade de imprensa começaram a enxergar as ameaças e mortes de jornalistas dos interiores do país - comunicadores e comunicadoras que, sem a proteção de uma grande empresa como a TV Globo, eram mortos no exercício da profissão quando denunciavam poderosos e suas mortes não tinham repercussão. Em muitos casos, os suspeitos de serem autores intelectuais destes crimes eram políticos e policiais. Entretanto, na maioria dos casos só os intermediários, ou seja, os que apertavam o gatilho, eram identificados e presos. O vídeo "Onde estão os mandantes?", realizado em 2009 pelo projeto Impunidade da SIP sobre jornalistas assassinados antes dos anos 2000 no Brasil, dá uma ideia dessa situação.

Dom Phillips e Bruno Pereira teriam sido assassinados em represália às denúncias de que os ribeirinhos estavam invadindo a Terra Indígena Vale do Javari, no Amazonas, para pescar ilegalmente. Em 2021, a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (UNIVAJA) havia enviado informações sobre estas invasões ao Ministério Público Federal, à Polícia Federal e à Fundação Nacional do Índio, apontando integrantes de uma quadrilha de pescadores e caçadores profissionais vinculados a narcotraficantes que ingressam ilegalmente no território para extrair recursos e vendê-los nas regiões vizinhas.

Quem mandou matar Dom e Bruno? A que interesses seus matadores defendiam? A identificação, o julgamento e a condenação de todos os envolvidos, principalmente dos mandantes, deve ser prioridade nesse momento, não para encerrar o caso, mas para abrir um amplo debate sobre a impunidade e os crimes que ocorrem diariamente na Amazônia e em outros Estados do Brasil. Como afirmou a UNIVAJA, em nota sobre o assassinato de Dom e Bruno: o caso não terminou. "A UNIVAJA compreende que o assassinato de Pereira e Phillips constitui um crime político, pois ambos eram defensores dos Direitos Humanos e morreram desempenhando atividades em benefício de nós, povos indígenas do Vale do Javari, pelo nosso direito ao bem-viver, pelo nosso direito ao território e aos recursos naturais que são nosso alimento e garantia de vida, não apenas da nossa vida, mas também da vida dos nossos parentes isolados. O que acontecerá conosco? Continuaremos vivendo sob ameaças? Precisamos aprofundar e ampliar a investigação. Precisamos de fiscalização territorial efetiva no interior da Terra Indígena Vale do Javari. Precisamos que as Bases de Proteção Etnoambiental (BAPEs) da FUNAI sejam fortalecidas", diz a nota.

Os meios de comunicação devem estar junto nesse processo, apoiando, denunciando. Trata-se de um dever e um direito de informar à população. Assim como no caso Tim Lopes, é preciso dar uma resposta à sociedade. Se os mandantes deste crime não forem presos, não serão apenas os povos da floresta que estarão na mira dos assassinos. Todas as pessoas que defendem a justiça, a ética e a vida estão em risco.

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