Miami (16 de setembro de 2025) – A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) qualificou como um ataque à liberdade de imprensa a ação apresentada na segunda-feira pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra o The New York Times e quatro de seus jornalistas por suposta difamação.
A ação, no valor de 15 bilhões de dólares, foi apresentada em um Tribunal Distrital da Flórida, segundo informações da imprensa. Ela cita vários artigos e um livro escrito por dois jornalistas do jornal, publicados no período que antecedeu as eleições de 2024, e os descreve como “parte de um padrão de décadas de difamação intencional e maliciosa contra o presidente Trump” por parte do The New York Times, segundo a agência The Associated Press.
Trump acusou o jornal de utilizar um “método de mentiras” contra ele, sua família e seus negócios, de acordo com relatos da imprensa. O presidente anunciou em sua rede social Truth Social que havia apresentado a ação judicial e se referiu ao The New York Times como “um dos jornais mais nefastos e degenerados da história do nosso país, que se tornou um virtual porta-voz do Partido Democrata da esquerda radical”.
Os réus são The New York Times Company, os jornalistas Susanne Craig, Russ Buettner, Peter Baker e Michael S. Schmidt, além da editora Penguin Random House, que publicou um livro sobre Trump escrito pelos jornalistas Craig e Buettner.
De acordo com o The New York Times: “Esta ação não tem fundamento. Não possui nenhuma base legal legítima e, em vez disso, é uma tentativa de reprimir e desencorajar o jornalismo independente. O The New York Times não se deixará intimidar por táticas de intimidação. Continuaremos investigando os fatos sem medo nem favoritismos e defendendo o direito dos jornalistas, amparado pela Primeira Emenda, de fazer perguntas em nome do povo americano”.
O presidente da SIP, José Roberto Dutriz, expressou solidariedade da organização com o jornal e os jornalistas processados. “Essa ação não busca justiça, mas sim utilizar os tribunais como arma política para intimidar e punir a imprensa crítica. Trata-se de um ataque direto à liberdade de imprensa. Ações dessa natureza ameaçam desencorajar o jornalismo independente e contrariam princípios fundamentais consagrados pela Primeira Emenda”, afirmou Dutriz, CEO e diretor-geral de La Prensa Gráfica de El Salvador.
A presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa e Informação da SIP, Martha Ramos, alertou para o efeito inibidor que esta ação pode ter em outros veículos. “A pretensão de desmantelar um jornal com uma cifra exorbitante é uma tentativa de censura disfarçada que atenta contra a essência da democracia. A ação constitui uma mensagem ameaçadora para todo o jornalismo: diante desses abusos de poder, a resposta deve ser clara – não se negocia com a verdade nem com a liberdade de informar”, afirmou Ramos, diretora editorial da Organização Editorial Mexicana (OEM).
A SIP lembrou que a jurisprudência norte-americana estabeleceu um padrão elevado para comprovar difamação contra figuras públicas, justamente para proteger a imprensa de tentativas de silenciá-la por incomodar o poder.
Trump já havia apresentado ações judiciais contra outros veículos, entre eles CBS/Paramount e ABC/Disney, empresas com as quais chegou a acordos extrajudiciais milionários. Também processou o jornal The Wall Street Journal em julho, exigindo cerca de 10 bilhões de dólares por difamação – ação que foi condenada, à época, pela SIP.
A Declaração de Chapultepec da SIP estabelece que a intimidação a jornalistas e as restrições à circulação de informação são práticas que “se opõem diretamente à liberdade de imprensa” e a “cerceiam severamente”. Já a Declaração de Salta II alerta que ações desproporcionais — utilizadas para gerar autocensura e comprometer a sustentabilidade dos meios — constituem um grave abuso judicial.
Diversos relatórios internacionais confirmam essas preocupações. Um informe de Repórteres sem Fronteiras (RSF) denunciou que a administração Trump intensificou sua hostilidade contra a imprensa por meio de táticas autoritárias utilizadas em outros regimes no mundo. Já o Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) advertiu em um relatório especial que, durante os primeiros 100 dias de governo, Trump gerou um “clima de medo” e um processo de deterioração das condições democráticas com sua guerra contra a imprensa.
A SIP é uma organização sem fins lucrativos dedicada a defender e promover a liberdade de imprensa e a liberdade de expressão nas Américas. É composta por mais de 1.300 publicações no Hemisfério Ocidental e tem sede em Miami, Flórida, Estados Unidos.