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Estado da imprensa.

A SIP denuncia graves retrocessos e avanços autoritários nas Américas

Crescente autoritarismo, restrições à liberdade de expressão, perseguição judicial, agressões a jornalistas e um ambiente digital hostil.

24 de abril de 2026 - 09:46

Miami (24 de abril de 2026) – A presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa e Informação da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), Martha Ramos, apresentou seu relatório sobre o estado da liberdade de imprensa no continente, no qual alerta para um retrocesso contínuo marcado por uma crescente reconfiguração autoritária a partir do poder. O documento aponta violações sistemáticas como censura prévia, restrições ao acesso à informação e o uso do sistema judicial para silenciar vozes críticas. Destaca ainda um ambiente digital cada vez mais hostil, caracterizado por vigilância cibernética, campanhas de difamação e desinformação promovidas pelo Estado, além da persistente estigmatização de jornalistas por líderes políticos.

Nesse contexto, explicou Ramos, consolidam-se práticas como assédio judicial, manipulação da publicidade oficial e o aumento da violência física contra jornalistas, em uma região onde a impunidade continua sendo a regra. Assassinatos, exílio e deslocamento forçado, fechamento de meios de comunicação e restrições legais evidenciam uma deterioração generalizada do ambiente para o exercício do jornalismo.

Diante dessa situação, a SIP instou os Estados a pôr fim à impunidade, cessar o uso indevido de mecanismos judiciais contra a imprensa, garantir transparência na distribuição de recursos públicos, proteger a confidencialidade das fontes e encerrar a retórica hostil contra o jornalismo.

A seguir, o texto integral do relatório de Ramos, diretora editorial da Organização Editorial Mexicana (OEM), apresentado durante a Reunião de Meio Ano da SIP.

“Jornalismo e liberdade de imprensa: retrocesso e reconfiguração autoritária”

O exercício do jornalismo e a liberdade de expressão em nosso continente continuam em retrocesso, e uma reconfiguração autoritária a partir do poder se delineia cada vez com mais força, conforme evidenciam os fatos registrados entre outubro de 2025 e abril de 2026. Avaliados à luz da Declaração de Chapultepec, os relatórios apresentados por cada país demonstram violações sistemáticas ao princípio de que a liberdade não deve ser cerceada por nenhum ato de poder. Diversos governos continuam exercendo censura prévia, limitando o livre fluxo de informações e instrumentalizando o poder judicial para sufocar vozes críticas.

Em paralelo, o ambiente digital se consolidou como uma nova frente de repressão, contrariando frontalmente a Declaração de Salta II. Esse instrumento normativo alerta para as ameaças da cibervigilância, campanhas de descrédito, desinformação impulsionada pelo Estado e violência digital.

Análise regional (outubro de 2025 – abril de 2026)

O assédio judicial por meio de legislações restritivas consolidou-se como o principal mecanismo de censura institucional.

  • Na Nicarágua, a Lei Especial de Crimes Cibernéticos é utilizada para criminalizar jornalistas e fontes, com penas de até cinco anos de prisão.

    • No Panamá, persiste um marco legal que permite o bloqueio de bens de meios de comunicação desde o início de processos por ações civis milionárias (SLAPPs), o que fomenta a autocensura. Soma-se a isso o avanço de reformas restritivas ao direito de resposta.

    • No Paraguai e no Canadá, legislações apresentadas sob o argumento de proteção (Lei de Proteção de Dados e Lei de Danos Online, respectivamente) estão sendo usadas ou podem ser utilizadas para bloquear o acesso à informação pública ou gerar efeito inibitório no discurso crítico.

    • Nos Estados Unidos, a Comissão Federal de Comunicações (FCC) e o Departamento de Justiça emitiram diretrizes e adotaram ações que ameaçam licenças de radiodifusão sob acusações de “viés” e violam a proteção de fontes jornalísticas.

Ao mesmo tempo, a estigmatização constante da imprensa por parte das mais altas esferas do poder tornou-se um padrão estrutural.

  • Governantes como Javier Milei (Argentina), Gustavo Petro (Colômbia), Rodrigo Chaves (Costa Rica) e Donald Trump (Estados Unidos) mantêm uma retórica hostil recorrente. Milei chamou jornalistas de “pena suja”, enquanto membros de seu gabinete qualificam o jornalismo crítico como “operações políticas”.

    • As restrições ao acesso à informação oficial e às coletivas de imprensa se agravaram. Em Porto Rico, o Executivo propôs restringir o acesso à La Fortaleza mediante credenciais arbitrárias, e o Tribunal Supremo decidiu que pode ser exigido um crachá oficial de jornalistas. Na Guiana, o presidente evita coletivas abertas, e no Equador as Forças Armadas classificam meios como “aliados” ou “críticos” para condicionar credenciamento.

    • No Chile, durante o processo eleitoral, persistiram pressões governamentais e denúncias de uso de conteúdos sem licença por órgãos públicos.

Nesse contexto, permanece a manipulação da publicidade estatal.

  • Na Guiana, a retenção de pagamentos de publicidade estatal levou ao fechamento da edição impressa do Stabroek News.

    • No Haiti, o governo nega publicidade a veículos independentes como a Radio Mega com base em sua linha editorial.

    • No Chile, houve atrasos de pagamentos do Serviço Eleitoral a meios regionais.

    • No México e na Costa Rica, relatórios denunciam opacidade e discricionariedade na distribuição de verbas de comunicação social.

Diante dessas condições, a região segue sendo letal para a imprensa.

  • No Peru, os assassinatos de Fernando Núñez e Mitzar Bato Castillejos tornaram 2025 o ano mais violento em décadas.

    • No México, os assassinatos de Miguel Ángel Beltrán Martínez e Carlos Castro evidenciam risco constante.

    • No Equador, os assassinatos de Fernando Álvarez e Robinson del Pezo demonstram avanço do crime organizado.

    • No Haiti, jornalistas continuam alvo de sequestros e desaparecimentos.

    • Nos Estados Unidos, a imprensa sofreu agressões com balas de borracha e gás lacrimogêneo durante coberturas migratórias.

Nesse cenário, a impunidade e a fragilidade das garantias agravam ainda mais o exercício do jornalismo.

  • O México registra 98% de impunidade em crimes contra a imprensa.

    • No Peru, a libertação de um condenado pelo assassinato do jornalista Hugo Bustíos reforçou a impunidade estrutural.

    • No Haiti, o colapso institucional impede investigações básicas.

    • A Nicarágua tornou-se um dos casos mais extremos de repressão à imprensa no hemisfério.

    • Em El Salvador, dezenas de jornalistas foram forçados ao exílio.

    • Em Cuba, o assédio policial levou ao abandono de atividades jornalísticas por diversos comunicadores.

Acompanhamento por país

(segue detalhamento país por país…)

Desde a SIP insistimos…

  • Fim das agressões e da impunidade

    • Fim do assédio judicial

    • Transparência na publicidade estatal

    • Proteção de fontes e do ciberespaço

    • Fim da estigmatização da imprensa

A SIP permanece atenta à situação na Venezuela e às decisões judiciais e institucionais em defesa da liberdade de expressão na região.

A SIP é uma organização sem fins lucrativos dedicada a defender e promover a liberdade de imprensa e a liberdade de expressão nas Américas. É composta por mais de 1.300 publicações no Hemisfério Ocidental e tem sede em Miami, Flórida, Estados Unidos.

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