Miami (8 de setembro de 2025) – A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) alerta que as propostas para reduzir a duração dos vistos e permissões de trabalho de jornalistas estrangeiros nos Estados Unidos podem constituir um retrocesso para a liberdade de imprensa, ao criar um mecanismo de controle que poderia ser utilizado como instrumento para pressionar ou silenciar comunicadores críticos ao governo.
O governo do presidente Donald Trump, por meio do Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês), apresentou em 28 de agosto uma proposta que limitaria a estadia de jornalistas estrangeiros nos EUA a 240 dias, com possibilidade de prorrogação por igual período, sempre sob rigoroso escrutínio.
A medida anularia as permissões atuais que permitem estender a residência de forma indefinida. Segundo o DHS, a iniciativa pretende atender supostos “riscos de segurança” e conter o que classifica como “abuso de vistos”, com efeitos também sobre estudantes e visitantes de intercâmbio.
O presidente da SIP, José Roberto Dutriz, advertiu que “a medida sugerida introduz uma incerteza permanente sobre a permanência dos correspondentes estrangeiros, o que pode incentivar a autocensura e desestimular coberturas críticas ao governo norte-americano”. Dutriz, CEO e diretor-geral de La Prensa Gráfica de El Salvador, acrescentou que “adotar práticas restritivas de visto, semelhantes às que os EUA têm criticado em regimes autoritários, enfraquece sua autoridade moral no cenário internacional”.
Por sua vez, a presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa e Informação, Martha Ramos, destacou que “essa iniciativa representa outra forma de limitar o acesso à informação e de silenciar a crítica internacional, numa tentativa de condicionar o discurso público. Além disso, existe o risco de que outros países adotem medidas de retaliação contra jornalistas norte-americanos, restringindo assim o fluxo global de informação”.
Ramos, diretora editorial da Organização Editorial Mexicana (OEM), enfatizou que “a proposta não resolve nenhum problema real de segurança, mas abre a porta para a censura disfarçada, para represálias políticas e para novos obstáculos à transparência e ao acesso a informações de interesse público”.
A Associação Mundial de Editores de Notícias, WAN-IFRA, qualificou a proposta como “discriminatória” e sustentou que “pretende resolver um problema inexistente”, em alusão à suposta ameaça à segurança nacional derivada da permanência de jornalistas estrangeiros nos EUA.
Na mesma linha, Repórteres Sem Fronteiras (RSF) rejeitou a iniciativa ao considerar que teria um efeito intimidatório sobre a imprensa e instou o DHS a desistir dela. “A renovação arbitrária ou a negativa de vistos é uma tática comumente utilizada por regimes autoritários para expulsar repórteres incômodos”, sublinhou a RSF.
O DHS informou que existe a possibilidade de enviar comentários online sobre as mudanças até a data-limite de 26 de outubro por meio deste link.
Em 2020, a SIP havia se unido ao Comitê de Repórteres pela Liberdade de Imprensa (RCFP, na sigla em inglês) e a outras 36 organizações de mídia em um apelo ao DHS para que retirasse uma proposta semelhante.
A SIP é uma organização sem fins lucrativos dedicada a defender e promover a liberdade de imprensa e a liberdade de expressão nas Américas. É composta por mais de 1.300 publicações no Hemisfério Ocidental e tem sede em Miami, Flórida, Estados Unidos.