Este não é um momento comum na vida de nossa instituição. Em toda a América, a liberdade de imprensa não está apenas sob pressão, mas enfrenta formas de ataque coordenadas, em evolução e cada vez mais sofisticadas. O que antes eram táticas associadas principalmente a sistemas autoritários hoje atravessa fronteiras, torna os limites mais difusos e aparece em lugares onde se acreditava que as instituições democráticas eram sólidas.
Nesse contexto, a missão da Sociedade Interamericana de Imprensa nunca foi tão relevante. Tampouco foi tão necessário enfrentarmos essas tendências de forma conjunta.
Uma região sob tensão
Em todo o nosso hemisfério surgiu um padrão preocupante.
Estamos testemunhando a normalização da hostilidade contra a imprensa. Cada vez mais, líderes políticos utilizam uma retórica agressiva que deslegitima o jornalismo, alimenta a polarização e corrói a confiança pública. As palavras importam. E quando essas palavras apresentam jornalistas como adversários em vez de participantes essenciais da democracia, criam um clima no qual prosperam a intimidação e se instala a autocensura.
Ao mesmo tempo, observamos o aumento do assédio judicial e da pressão regulatória. Processos, leis de difamação penal e mecanismos administrativos são usados não para garantir justiça, mas para silenciar o escrutínio público. A litigância estratégica tornou-se uma ferramenta de controle, desenhada para desgastar e intimidar vozes independentes.
Em muitos lugares, a violência continua sendo uma ameaça constante. Jornalistas seguem enfrentando ataques, ameaças e, tragicamente, assassinatos, muitas vezes em contextos marcados pelo crime organizado. Essa violência é sustentada por uma impunidade persistente e gera um medo sistêmico.
Também enfrentamos crescentes restrições ao acesso à informação. Governos limitam dados públicos, restringem credenciais e manipulam sistemas de transparência, enfraquecendo não apenas o jornalismo, mas o direito fundamental do público de permanecer informado.
A essas pressões soma-se a fragilidade econômica dos meios de comunicação. A queda de receitas, as transições digitais desiguais e o uso discricionário da publicidade estatal enfraquecem a mídia independente, deixando-a vulnerável à influência e ao colapso.
E, cada vez mais, o campo de batalha é digital. O assédio online direcionado, a vigilância e as campanhas de desinformação — muitas vezes desproporcionalmente voltadas contra mulheres jornalistas — estão moldando uma nova e perigosa fronteira para a liberdade de imprensa.
Assim, em toda a nossa região, embora em países e contextos diferentes, encontramos as mesmas ameaças estruturais.
Um momento decisivo nos Estados Unidos
Pela primeira vez na história moderna, também devemos reconhecer uma mudança profunda: os Estados Unidos estão experimentando pressões sistêmicas sobre a liberdade de imprensa que refletem padrões há muito observados na América Latina.
Vemos uma escalada da hostilidade institucional e política — incluindo processos judiciais, estigmatização pública e uma retórica vinda dos mais altos níveis de governo que apresenta jornalistas como adversários. Essa retórica está criando um ambiente de trabalho cada vez mais perigoso.
Observamos preocupações sobre o uso do poder estatal e da autoridade regulatória, incluindo ações envolvendo órgãos como a Comissão Federal de Comunicações, o que levanta questionamentos sobre possível uso indevido do poder do Estado — direta ou indiretamente — para influenciar a independência editorial.
Também vemos restrições ao acesso da mídia, bem como práticas de retaliação ligadas a decisões editoriais e conteúdos.
E constatamos um aumento alarmante da violência e das detenções, particularmente durante a cobertura de protestos, o que indica uma deterioração das condições de segurança nas quais os jornalistas atuam.
Por que este momento sem precedentes nos Estados Unidos importa?
Porque, quando a liberdade de imprensa se enfraquece nos Estados Unidos, isso envia um sinal a todo o hemisfério, encorajando outros governos a fazerem o mesmo.
Mas aqui também reside uma oportunidade para nós, como organização cuja principal missão é a defesa e promoção da liberdade de expressão. A resiliência, a coragem e a experiência dos jornalistas da América Latina — que enfrentam esses desafios há décadas — podem agora servir como fonte de força e orientação. O intercâmbio dessas experiências já não é teórico: é essencial.
Incidência que faz a diferença
Em momentos como este, nossas ferramentas importam.
As missões de incidência continuam sendo um dos instrumentos mais poderosos de que dispomos. Elas abrem diálogo, ampliam a visibilidade e geram responsabilização e compromisso.
Nossa recente missão ao Uruguai é um exemplo do que é possível.
Ficamos encorajados pela disposição do presidente Yamandú Orsi, cuja assinatura das Declarações de Chapultepec e Salta II reflete um compromisso institucional claro e significativo com a liberdade de imprensa. É um lembrete de que uma liderança democrática, baseada no respeito e na abertura, pode gerar avanços concretos.
Essa experiência nos mostra algo importante: o engajamento — e não apenas a confrontação — pode nos fazer avançar.
E nos desafia a replicar esse modelo em todo o hemisfério, especialmente onde a hostilidade contra a imprensa se tornou normalizada.
Enfrentar a impunidade
Se há uma ameaça que exige, acima de todas, nossa atenção constante, é a impunidade.
Mais de 90% dos assassinatos de jornalistas nas Américas permanecem sem solução. Isso não é apenas uma estatística: é uma falha sistêmica.
Hoje anunciamos que a SIP reativará sua Unidade de Resposta Rápida, com o apoio do Fundo Global para a Defesa da Mídia da UNESCO.
Essa unidade investigará casos emblemáticos de jornalistas assassinados, reabrirá investigações e atuará por meio de jornalismo rigoroso e coordenação jurídica para buscar justiça. Apoiará famílias, buscará reparações e aplicará litígio estratégico e pressão internacional onde for necessário.
Cada caso servirá como gatilho: gerando evidências, ativando processos legais, expondo padrões e promovendo reformas.
Porque a impunidade não é inevitável. É resultado da inação. E quando há visibilidade — quando há coordenação, quando há pressão sustentada — os Estados respondem.
Construir um futuro sustentável
A liberdade de imprensa não pode existir sem meios de comunicação sustentáveis.
Por isso, a SIP continua priorizando inovação e resiliência. Nosso Laboratório de Produtos de IA demonstrou o que é possível: apoiar a transformação, fortalecer capacidades e ajudar organizações jornalísticas a se adaptarem a um ambiente em rápida evolução.
Ao concluir esta fase, estamos trabalhando em estreita colaboração com a Google News Initiative para lançar um esforço renovado que aprofunde nosso compromisso com a sustentabilidade, a inovação e o futuro do jornalismo nas Américas.
Um chamado à unidade
Em todo o hemisfério, o padrão é inconfundível.
Nações diferentes. Sistemas diferentes. Mas as mesmas ameaças estruturais.
E, por isso, nossa resposta deve ser igualmente clara:
- Maior coordenação.
- Solidariedade mais profunda.
- Ação mais decidida.
A missão da Sociedade Interamericana de Imprensa não mudou. Mas a urgência, sim.
Estamos chamados a defender a liberdade de imprensa onde quer que ela esteja ameaçada, sem hesitação e sem exceções.
Porque, no final, o princípio que nos une é simples e inegociável:
Um ataque ao jornalismo em qualquer lugar das Américas é um ataque à democracia em todas as partes."
Leia a mensagem em espanhol e inglês.
A SIP é uma organização sem fins lucrativos dedicada a defender e promover a liberdade de imprensa e a liberdade de expressão nas Américas. É composta por mais de 1.300 publicações no Hemisfério Ocidental e tem sede em Miami, Flórida, Estados Unidos.