SIP manifesta preocupação com possíveis represálias do presidente eleito do Brasil

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Jair Bolsonaro ameaçou retirar a publicidade oficial do jornal Folha de S. Paulo, em retaliação por reportagens jornalísticas.
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Miami (31 de outubro de 2018).- A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) manifestou preocupação com as declarações do presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, que ameaçou retirar a publicidade oficial do jornal Folha de S. Paulo, em retaliação por reportagens jornalísticas sobre o uso de mensagens enganosas no WhatsApp durante a campanha eleitoral.

A presidente da SIP, María Elvira Domínguez, disse que "embora a eleição dos cidadãos brasileiros seja algo positivo, estamos preocupados que o presidente eleito não faça distinção entre governo e Estado, ao afirmar que utilizaria a administração pública para punir os meios de comunicação que considerar incômodos, não lhes concedendo publicidade oficial".

Bolsonaro ameaçou retirar a publicidade oficial da Folha de S. Paulo em represália por uma denúncia jornalística que afirmava que um grupo de empresários teria investido quatro milhões de dólares em uma campanha para difundir notícias falsas no WhatsApp contra seu adversário, Fernando Haddad. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) abriu uma investigação sobre a publicação do jornal em 20 de outubro. Bolsonaro, que disse estar comprometido com a liberdade de expressão, rejeitou as acusações e disse que o jornal mentiu.

Domínguez, diretora do jornal El País, de Cali, Colômbia, acrescentou que "essa marginalização da Folha de S. Paulo não condiz com o respeito pela liberdade de imprensa e liberdade de expressão que Bolsonaro se comprometeu a garantir no domingo passado depois de ter sido eleito, e muito menos com as convenções internacionais sobre direitos humanos assinadas pelo Brasil que estabelecem que fazer discriminação da mídia por meio da publicidade oficial ou não utilizar critérios técnicos para divulgar atos públicos e a publicidade estatal é uma violação dos princípios de liberdade de expressão e de imprensa".

O presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa e Informação da SIP, Roberto Rock, acrescentou que "no caso do Brasil, além dessa ameaça, estamos preocupados com as desqualificações que o presidente eleito utiliza contra a mídia e os jornalistas de postura crítica".

Rock, diretor do site de notícias La Silla Rota, da Cidade do México, acrescentou que "a mídia dever estar aberta a críticas e fazer parte desta tensa relação que é natural entre a mídia e o governo, mas deve-se garantir liberdade à imprensa para que desempenhe suas importantes funções, como criticar, opinar, denunciar, investigar e exigir transparência e prestação de contas de todos os atores da sociedade, sejam públicos ou privados". Acrescentou que o trabalho realizado pela imprensa brasileira durante o processo da Lava-Jato e outros casos de corrupção foi louvável.

Depois da publicação da matéria "Empresários financiam uma campanha contra o Partido dos Trabalhadores por WhatsApp", publicada em 18 de outubro, a jornalista foi ameaçada e teve seu telefone hackeado. Bolsonaro, que assumirá a presidência em 1º de janeiro, referiu-se também à Folha de S. Paulo e outros meios de comunicação críticos no Twitter como "imprensa de lixo".

A SIP é uma organização sem fins lucrativos que se dedica a defender e promover a liberdade de imprensa e de expressão nas Américas. É composta de mais de 1.300 publicações do hemisfério ocidental e tem sede em Miami, Flórida.

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