Newsletter
Portugués
  • Español
  • English
  • Portugués
Visita à prisão.

A Resiliência Inquebrável de José Rubén Zamora diante da ofensiva para silenciálo

19 de diciembre de 2025 - 09:13

Por Carlos Lauría / Diretor Executivo da SIP

Conheci José Rubén Zamora há mais de vinte anos, quando eu era responsável pelo programa das Américas no Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ). Ele foi um dos primeiros casos graves que tive de acompanhar: o ataque brutal que ele e sua família sofreram em 2003.

Aquele episódio —um comando de homens armados que invadiu sua casa, o manteve sob a mira de armas, atacou seus filhos e o obrigou a ouvir enquanto lhe diziam que estava prestes a ser executado— permanece gravado na minha memória.

Alguns anos depois, em julho de 2008, durante uma viagem de trabalho à Cidade da Guatemala, outra notícia me abalou: José Rubén havia sido sequestrado e abandonado semiconsciente na região de Chimaltenango.

Lembrome também da angústia de sua equipe, da preocupação de seus colegas, da sensação esmagadora de que a Guatemala poderia perder uma de suas vozes mais lúcidas. Horas depois, ouvir sua voz —desorientada, mas firme— foi um alívio imenso.

Ele me contou então que não se lembrava de nada, que só sabia que havia saído para jantar e acordado nu e espancado em um hospital. Foi uma das muitas tentativas de silenciálo, de impedilo de investigar a corrupção e o crime organizado. E, ainda assim, ele continuou escrevendo, denunciando, publicando.

Ele nunca deixou de expor a forma como o poder operava nas sombras. Foi intimidado, ameaçado, processado e atacado por causa das reportagens que publicou.

Um sistema de perseguição judicial contra críticos e opositores —orquestrado pelo Ministério Público durante o governo de Alejandro Giammattei— teceu uma trama judicial obscura contra ele. E, há mais de três anos, José Rubén está preso. Foi detido em 2022 durante uma operação sem fundamentos claros; em menos de 72 horas, as autoridades fabricaram acusações de lavagem de dinheiro, extorsão e tráfico de influência.

Sua primeira audiência não ocorreu dentro do prazo legal, e tudo o que cercou seu caso desde então tem sido um exemplo de máfé institucional: três processos criminais fabricados, violações sistemáticas do devido processo legal e um Judiciário determinado a enviar uma mensagem inequívoca: na Guatemala, o jornalismo crítico é punido.

O efeito dominó foi devastador: o fechamento do elPeriódico, o assédio judicial à redação, o exílio forçado de sua família, a ameaça constante contra qualquer pessoa associada ao seu trabalho. Não há outro nome para isso além de perseguição política.

Visitamolo na prisão em janeiro de 2024, em uma missão conjunta da SIP e do CPJ, e novamente em outubro daquele ano, quando tive a alegria de vêlo após ele ter recuperado temporariamente a liberdade. Essa visita também incluiu um encontro com o presidente Bernardo Arévalo. As profundas falhas de um processo judicial claramente irregular o enviaram de volta à prisão em março. E ali ele permanece, com adiamentos constantes de audiências e obstáculos permanentes destinados a mantêlo encarcerado.

Nesta última sextafeira, visiteio na prisão com seu filho José. Eu esperava encontrálo desanimado ou abatido pelo isolamento. Não foi o caso. Ele nos recebeu sereno, lúcido, e até com uma energia que me surpreendeu. Sua aparência física não consegue esconder o que ele suportou: nos primeiros meses de cativeiro, foi submetido a tortura física e psicológica, condições extremas de detenção e humilhações diárias. Poderiam têlo destruído. Mas não conseguiram quebrar sua determinação inabalável.

Conversamos por horas. Ouvi enquanto ele relatava os detalhes de seu encarceramento: as celas, as noites sem dormir, o peso insuportável de saber que poderia morrer ali. Mas também o ouvi falar de sua família com enorme compaixão, de sua fé na justiça internacional, de sua determinação inquebrantável, de sua certeza de que fez o que era correto.

Admiro sua fortaleza diante de uma injustiça tão avassaladora. Talvez seja a convicção de alguém que entende que a verdade não é uma profissão, mas um dever moral. Ou a necessidade de continuar sendo uma referência para toda uma geração de jornalistas que cresceu aprendendo com ele. Ou talvez seja simplesmente um ato de resistência íntima —a forma mais pura de afirmar que, embora tenha sido privado de sua liberdade, não conseguiram quebrálo.

Ao deixar a prisão, pensei naquele jovem ativista de vinte anos atrás, confrontado pela primeira vez com a brutalidade dirigida a um jornalista na América Central. E pensei em tudo o que mudou desde então —para ele, para a Guatemala, para o jornalismo— e no que não mudou: a coragem de José Rubén.

Sua resiliência, em meio à injustiça, é um lembrete de que mesmo nos contextos mais adversos um homem pode escolher não desistir e pode escolher permanecer livre.

Sua história merece ser contada com respeito, mas também com indignação. E porque confio —acredito sinceramente— que chegará o dia em que poderemos abraçálo fora daquela cela.

Até lá, nosso dever é claro: continuar exigindo sua libertação, denunciar cada abuso e nos recusar a permitir que o silêncio se torne cúmplice.

José Rubén Zamora é um homem injustamente preso. Mas não está derrotado. E enquanto ainda tiver voz, mesmo atrás das grades, a Guatemala continuará tendo uma possibilidade de redenção.

Continue lendo

Você pode estar interessado em