O exílio tornou-se uma das manifestações mais visíveis da crise da liberdade de imprensa na América Latina. Jornalistas obrigados a abandonar seus países, redações que continuam operando fora de suas fronteiras e meios de comunicação que sobrevivem em condições de grande precariedade foram alguns dos temas abordados no painel “Jornalismo resiliente diante do exílio: Dois anos da rede de assistência da SIP”, realizado na sexta-feira, 24 de abril, durante a Reunião Semestral da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP).
No painel, foram analisados o impacto e os desafios da Rede Latino-Americana de Jornalismo no Exílio (RELPEX), uma iniciativa impulsionada pela SIP para assistir jornalistas e meios de comunicação deslocados pela perseguição política, pela censura e pela criminalização do exercício do jornalismo na região. A RELPEX conta atualmente com mais de 400 jornalistas registrados, provenientes de países como Venezuela, Cuba, Nicarágua e El Salvador, entre outros.
A primeira parte do encontro centrou-se na origem, nos objetivos e nos resultados alcançados pela rede em seus dois primeiros anos de atuação. Carlos Lauría, diretor executivo da SIP, contextualizou a criação da RELPEX como uma resposta direta ao aumento constante do exílio e da mobilidade forçada de jornalistas latino-americanos.
Nessa perspectiva, Lauría destacou que o exílio profissional já não é um fenômeno excepcional, mas uma condição estrutural do jornalismo em regimes autoritários ou em democracias enfraquecidas. A RELPEX, acrescentou, responde a isso com programas de apoio de emergência, assistência jurídica e um fundo de empregabilidade que paga metade dos salários de jornalistas contratados por meios de comunicação no exílio.
O apoio aos meios de comunicação é fundamental
No mesmo segmento, Juan Lorenzo Holmann, gerente geral do jornal La Prensa da Nicarágua, compartilhou a experiência de um dos meios de comunicação mais emblemáticos da região, que hoje opera inteiramente a partir do exílio após a prisão de sua direção, a confiscação de sua sede e a expulsão de grande parte de sua equipe.
Holmann destacou que o apoio da RELPEX se refletiu diretamente no trabalho do veículo de comunicação e na sustentabilidade de sua equipe jornalística. “Os regimes expulsam os jornalistas porque querem silenciá-los, e é isso que a Rede está evitando. Ela faz isso por meio do fortalecimento dos meios de comunicação, e isso é muito importante”, afirmou.
Sobre os prêmios que o La Prensa recebeu desde o exílio, ele afirmou que esses reconhecimentos não apenas os incentivam a continuar trabalhando, mas também tiveram efeitos políticos concretos. “A Nicarágua saiu da UNESCO porque (nessa organização mundial) reconheceram o trabalho que estamos fazendo”, exemplificou.
Acompanhamento e atualização
A segunda parte do painel se concentrou nos desafios e oportunidades do jornalismo no exílio, com a participação de Patricia Marcano, coordenadora de redação do Armando.info (Venezuela), e José Jasán Nieves, diretor do elTOQUE (Cuba), dois meios de comunicação que conseguiram consolidar modelos de trabalho transnacionais apesar da perseguição contínua por parte de seus respectivos regimes.
Nieves explicou as dificuldades de dirigir redações dispersas, proteger as equipes e as fontes, manter a produção jornalística sem uma base territorial e enfrentar campanhas de estigmatização, ameaças judiciais e pressões econômicas a partir do exílio.
Por sua vez, Marcano destacou que trabalhar fora dos países de origem obriga os jornalistas a repensar rotinas, narrativas e modelos organizacionais, enquanto enfrentam desafios cotidianos de sobrevivência. Um fenômeno que ele observou, comentou, é que na Venezuela as fontes se sentem mais à vontade para falar com jornalistas que estão fora do que com aqueles que ainda vivem no país. Isso implica um desafio adicional para a reportagem, com maiores exigências de verificação.
A isso somam-se as pressões inerentes ao exílio que eles devem enfrentar. “Em um país que não é o seu, você fica pensando no que fazer para viver, para pagar o aluguel, para chegar às fontes, e acaba deixando de lado coisas importantes como se capacitar e se atualizar. Isso é algo em que a RELPEX está trabalhando e é muito importante”, comentou.
O diálogo permitiu destacar que o exílio não implica necessariamente o silêncio, mas exige condições de apoio contínuas, tanto no âmbito jurídico quanto econômico e psicossocial, para que os jornalistas possam continuar exercendo sua profissão com dignidade e segurança. “Nem todos conseguirão continuar fazendo jornalismo a partir do exílio, e também é preciso apoiá-los para que deem esse salto e se adaptem. Quem sabe se, no futuro, não conseguiremos recuperar esses profissionais que continuam sendo jornalistas de coração”, afirmou Nieves.
O fórum foi encerrado com um convite para que jornalistas que se encontram em situação de exílio ou deslocamento se cadastrem na RELPEX por meio deste link, para que tenham acesso aos recursos e programas disponíveis por meio da rede.