Miami (10 de março de 2026) – A sexta edição do Índice Chapultepec de Liberdade de Expressão e de Imprensa, divulgada hoje em um evento virtual da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), apresenta um cenário particularmente preocupante para o jornalismo nas Américas: a média global alcançou o nível mais baixo desde a criação do indicador, com 47,13 pontos em um máximo de 100.
Durante a apresentação do estudo, o diretor executivo da SIP, Carlos Lauría, advertiu que os resultados confirmam “uma deterioração significativa tanto em regimes autoritários quanto em democracias consolidadas”, refletindo uma tendência regional marcada por pressões políticas, violência, assédio judicial e riscos crescentes para o exercício do jornalismo.
Por sua vez, Martha Ramos, presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa e Informação da SIP e diretora da Organización Editorial Mexicana (OEM), destacou a proliferação de discursos e práticas de caráter autoritário que procuram apresentar a imprensa como “inimigo número um” para evitar a prestação de contas e enfraquecer o escrutínio público.
León Hernández, coordenador acadêmico do índice e pesquisador da Universidade Católica Andrés Bello (UCAB), apresentou os resultados elaborados a partir da avaliação de 195 especialistas em liberdade de expressão em 23 países. Entre as conclusões mais relevantes destacamse:
- Liderança frágil: A República Dominicana mantém o primeiro lugar com 82,17 pontos, sendo a única nação na categoria “Com Liberdade de Expressão”. No entanto, Hernández advertiu sobre a presença de uma “mordaça silenciosa”, caracterizada pelo uso discricionário da publicidade estatal e pela vulnerabilidade econômica que afeta numerosos meios de comunicação.
- Quedas alarmantes: Os Estados Unidos registraram a queda mais acentuada do índice ao perder 22,65 pontos, passando do quarto para o décimo primeiro lugar. O relatório atribui esse retrocesso a um ambiente marcado por retórica hostil contra a imprensa durante o governo do presidente Donald Trump, pela eliminação de certas salvaguardas institucionais e por episódios de agressões contra jornalistas durante coberturas.
- A faixa vermelha: Venezuela (7,02 pontos) e Nicarágua (18,22 pontos) continuam na categoria “Sem Liberdade de Expressão”. No caso venezuelano, a SIP denunciou a consolidação de uma estrutura sistemática de censura que resultou no fechamento de mais de 400 emissoras de rádio e na detenção de 25 jornalistas após os acontecimentos eleitorais de 2024.
O caso de El Salvador
Sergio Arauz, presidente da Associação de Jornalistas de El Salvador (APES), aprofundou a situação de seu país, que aparece ao lado de Cuba, Venezuela e Nicarágua entre os níveis mais críticos do índice.
Arauz denunciou uma “escalada repressiva” no contexto do regime de exceção impulsionado pelo governo de Nayib Bukele. Segundo explicou, o uso da Lei de Agentes Estrangeiros, somado ao assédio judicial contra meios de comunicação e jornalistas, forçou cerca de cinquenta jornalistas salvadorenhos ao exílio no último ano.
“Não há possibilidade de exercer plenamente o jornalismo sem enfrentar consequências quando existe um Poder Executivo com poderes praticamente ilimitados e sem controle jurídico efetivo”, afirmou Arauz, subeditor do portal El Faro, cuja redação atualmente opera a partir do exterior. Ele também alertou para o crescimento da autocensura entre a população salvadorenha por medo de represálias.
O período analisado consolidase como um dos mais difíceis para o exercício do jornalismo na região, marcado por homicídios, detenções arbitrárias, processos judiciais e exílios forçados que afetam jornalistas desde o México e a América Central até diversos países do Cone Sul.
Entre os mecanismos mais frequentes de restrição estão a criminalização do jornalismo independente, o uso de discursos estigmatizantes contra a imprensa e diversas formas de asfixia econômica deliberada contra meios críticos.
Enquanto a República Dominicana permanece como o único país com pontuação superior a 80 pontos, seguida por Chile, Canadá, Brasil, Uruguai e Jamaica, grande parte do hemisfério enfrenta o desafio de fortalecer mecanismos de proteção para jornalistas e revisar marcos legais que restringem ou desestimulam a livre expressão.
Rumo a 2026, a região entra em um período marcado por processos eleitorais e mudanças geopolíticas que podem redefinir o ambiente informativo, levantando novos dilemas, desafios e responsabilidades para a defesa da liberdade de imprensa.
O Índice Chapultepec de Liberdade de Expressão e de Imprensa pode ser consultado no seguinte link.
A SIP é uma organização sem fins lucrativos dedicada a defender e promover a liberdade de imprensa e a liberdade de expressão nas Américas. É composta por mais de 1.300 publicações no Hemisfério Ocidental e tem sede em Miami, Flórida, Estados Unidos.