Miami (29 de julho de 2026) – Daniel Hadad abriu o SIPConnect 2026 com uma reflexão sobre o impacto da inteligência artificial nos meios de comunicação, um fenômeno que, segundo afirmou, deixou de ser uma tendência emergente para se tornar uma realidade que atravessa a produção de conteúdo, os modelos de negócio e a relação das audiências com a informação.
“Hoje todos já usamos IA nos meios”, afirmou Hadad ao iniciar uma apresentação que combinou dados sobre o ecossistema digital com alertas sobre as transformações políticas, culturais e econômicas que acompanham a rápida evolução dessa tecnologia.
Para o fundador e CEO do Infobae, a velocidade da mudança é um dos aspectos mais disruptivos do momento atual. Citando especialistas em tecnologia, afirmou que “na evolução dos computadores, a distância entre a ameba e o Tyrannosaurus rex pode ser percorrida em uma década”, uma metáfora usada para ilustrar o ritmo exponencial do desenvolvimento da inteligência artificial.
Um dos principais focos de preocupação para os meios de comunicação continua sendo a perda de tráfego proveniente das plataformas tecnológicas e dos mecanismos de busca.
Hadad destacou que as ferramentas de IA generativa não estão direcionando tráfego de forma significativa para os sites jornalísticos, enquanto os meios enfrentam uma redução sustentada nas visitas provenientes do Google.
Segundo dados compartilhados durante a conferência, a Chartbeat registrou, em novembro de 2025, uma queda global de 33% no tráfego orgânico do Google entre quase 2.600 sites analisados. Nos Estados Unidos, a diminuição chegou a 38%. Ao mesmo tempo, o Google Discover apresentou retrações de 21% em nível global e de 29% no mercado americano.
A tendência também afeta grandes organizações jornalísticas. Entre os exemplos citados estavam Reuters, The Washington Post, Business Insider e USA Today, cujos níveis de tráfego orgânico provenientes do Google registraram quedas significativas nos últimos anos.
A expansão do conteúdo automatizado
Hadad também destacou o crescimento acelerado de conteúdos gerados por inteligência artificial.
Ele citou estimativas segundo as quais 57% do conteúdo disponível na internet já é criado ou traduzido por IA, ao mesmo tempo em que proliferam os chamados content farms e o fenômeno conhecido como AI slop, termo usado para descrever grandes volumes de conteúdo automatizado e de baixa qualidade.
Outro dado revelador se soma a esse cenário: 53% do tráfego da internet já é automatizado. “Os humanos são minoria na web pelo segundo ano consecutivo”, destacou.
Nesse contexto, afirmou que a abundância de conteúdo sintético pode acabar beneficiando as organizações jornalísticas capazes de oferecer informação confiável e marcas reconhecidas. No entanto, o desafio é que os meios consigam manter essa qualidade e credibilidade.
Ele mencionou a experiência do Infobae com o ScribNews, sua solução própria. “Nosso trabalho está mudando. O CMS que usamos não incorporou IA. Colocamos a IA ao redor dele, de modo que já identifica o jornalista e detecta estilos. Trabalha junto com o jornalista; o critério continua sendo humano”, explicou.
Apesar das vantagens da IA, ele convidou a passar do tecno-otimismo para a tecno-cautela.
A principal razão, explicou, é que estamos entrando em uma fase dominada por sistemas que atuam como agentes capazes de tomar decisões, executar tarefas e aprender com as interações humanas.
“A IA é a primeira tecnologia da história capaz de tomar decisões e gerar novas ideias por si mesma”, afirmou.
Essa capacidade levanta questões que vão muito além das redações e alcançam áreas como política, cultura e vida democrática. A parte mais inquietante da apresentação foi dedicada aos riscos associados à relação cada vez mais estreita entre humanos e sistemas de inteligência artificial.
Hadad advertiu que essas tecnologias estão sendo projetadas para desenvolver vínculos cada vez mais pessoais com os usuários, acumulando informações sobre suas emoções, necessidades e comportamentos.
“Basta ouvi-lo por semanas, identificar seus medos, suas lacunas e suas necessidades, e encontrar exatamente as palavras capazes de influenciar suas decisões”, afirmou.
Segundo sua análise, essa capacidade pode ser explorada por atores políticos, governos ou grupos organizados para influenciar o comportamento de milhões de pessoas por meio de exércitos de bots capazes de simular relações de amizade e confiança.
Para reforçar essa preocupação, citou a acadêmica Shoshana Zuboff, autora de The Age of Surveillance Capitalism, que tem alertado que as grandes empresas de tecnologia acumulam níveis de poder sem precedentes a partir da captura massiva de dados.
Hadad encerrou sua intervenção com uma defesa do jornalismo profissional em um ambiente marcado pela sobrecarga de informação, automação e fragmentação da atenção.
Ele alertou para uma sociedade cada vez mais dominada por algoritmos que alimentam a distração e a indignação permanente, e advertiu que a leitura está perdendo espaço para outras formas de consumo de conteúdo.