O pacto histórico que sustentou a internet nos últimos vinte e cinco anos chegou ao fim. Durante décadas, o modelo era simples: o usuário fazia uma busca, encontrava um link, clicava nele e o editor monetizava essa visita. Hoje, a IA eliminou essa etapa intermediária...
“Quando dizem aos meios de comunicação que eles terão alta visibilidade nos sistemas de IA, a realidade é bem diferente. A taxa real de cliques gira em torno de apenas 1%. Já não existe um argumento baseado em tráfego na economia da IA. No máximo, pode haver um debate sobre royalties, mas o tráfego como o conhecíamos desapareceu”, afirmou Lucky Gunasekera, fundador da Miso Technologies Inc., ao abordar o impacto da inteligência artificial no jornalismo global.
Essa transformação provocou uma queda de até 30% no tráfego anual dos meios de comunicação tradicionais nos Estados Unidos e no Reino Unido, com projeções de reduções de até 50% até 2030. A crise já se reflete no mercado, com empresas de mídia digital sendo vendidas com descontos de até 90% em relação às suas avaliações durante a pandemia.
O fracking digital e os vampiros tecnológicos
Segundo o especialista, o problema mais grave não é apenas a perda de visitas, mas também o método pelo qual as grandes empresas de tecnologia obtêm os dados. Gunasekera criou o termo “fracking informático” para descrever a extração massiva, desregulada e caótica de conteúdos jornalísticos.
O especialista também alertou sobre a existência de “vampiros tecnológicos”: empresas de tecnologia que operam como se a internet fosse uma jazida livre. Elas utilizam navegadores invisíveis (headless), redes IP residenciais e inteligência artificial comportamental para burlar paywalls e roubar informações sem deixar rastros e sem compensar financeiramente seus criadores.
A segunda audiência: os “enxames” de máquinas
Diante do declínio do consumo exclusivamente humano, Gunasekera destacou que os meios de comunicação enfrentam hoje uma segunda audiência: os agentes de inteligência artificial e os chamados “enxames” tecnológicos. As máquinas operam 24 horas por dia, 7 dias por semana, processando informações em tempo real.
Nesse novo ecossistema digital, no qual pessoas e algoritmos convivem, os rastreadores de busca e as ferramentas de IA geram um grande volume de consultas. No entanto, o especialista alertou que essas buscas carecem de criatividade e julgamento crítico, o que aumenta o valor do trabalho jornalístico, da investigação original e das exclusivas.
Para onde vão os meios de comunicação? Três caminhos possíveis
Gunasekera concluiu que os editores enfrentam atualmente três caminhos:
O caminho dos acordos comerciais (Deals): Aceitar compensações fixas das grandes empresas de tecnologia em troca de ceder conteúdo em escala, mesmo que isso signifique perder a relação direta com os clientes.
O caminho da fortaleza (Fortress): Bloquear todo o acesso e se refugiar atrás de paywalls rígidos. Um caminho que poderia empobrecer e isolar a web aberta.
O caminho da refinaria (Soberania tecnológica): Construir uma infraestrutura própria. Em vez de se submeter ao fracking de terceiros, os meios de comunicação devem vetorizar seus arquivos históricos, atomizar seus conteúdos e desenvolver seus próprios mecanismos de resposta e serviços baseados em inteligência artificial sob controle direto.
Ao finalizar sua apresentação, Gunasekera incentivou os meios de comunicação a não se limitarem aos tradicionais acordos de licenciamento, mas a lutarem por uma economia própria de intercâmbio, na qual controlem a telemetria, o acesso e o valor de suas informações.
“Se você não gosta do fracking, a resposta simples é construir sua própria refinaria e vencê-los no próprio jogo deles”, concluiu.